Livro #1: JL Collins – The Simple Path to Wealth

Hesitei durante algum tempo em relação a por qual livro começar esta série — por um lado, preferia algo mais simples/menos avançado (o que este é), mas por outro queria algo que se aplicasse mais aos meus actuais leitores/as habituais, e este — que é mais sobre investimentos do que poupança propriamente dita — não se aplicará tanto. Por (ainda) outro lado, também não era desejável que a procura do exemplo perfeito me impedisse de começar a série, e este livro é muito bom — tanto em termos da informação que inclui, como por a leitura (ou audição do audiobook) ser bastante agradável, na minha opinião. Por isso…

http://jlcollinsnh.com/

The Simple Path to Wealth é um livro feito a partir de um blog, jlcollinsnh.com, que por sua vez começou por ser uma expansão de um conjunto de cartas que o autor (Jim Collins) escreveu para a filha sobre finanças pessoais e investimento. O autor conta como, numa das várias conversas sobre esse tema com a filha, ela lhe respondeu algo como “Pai, eu entendo que isto é um assunto importante, que o dinheiro é para levar a sério, mas não acho piada nenhuma a aprender sobre bolsa, investimentos, etc.; não quero ter de pensar nisto!” E o autor, nesse momento, apercebe-se de que ele estava a assumir que, como achava o tema fascinante, a filha partilhasse dessa opinião… o que não era o caso. Então dedicou-se a arranjar uma forma de a filha poder pôr a coisa em “piloto automático”, tendo a sua “saúde financeira” tão garantida quanto possível e sem trabalho nenhum; depois de o conseguir começou o blog… e eventualmente “arrumou” parte do mesmo para publicar como um livro.

Não é um grande “spoiler” se disser que o livro se poderia resumir ao seguinte:

  1. gasta menos do que ganhas;
  2. investe o resto;
  3. evita dívidas.

Eu sei que tudo isto parece bastante óbvio, sobretudo para quem já se interessa por estes assuntos. De certa forma, é. Claro que ele expande cada um dos pontos, sobretudo o segundo (outro “spoiler”: investir em “index funds” de baixo custo, tipo Total Stock Market ou S&P 500), e ainda fala bastante sobre contas de poupança, impostos e afins — esta última parte, infelizmente, só aplicável em geral aos EUA. Aborda também a questão da independência financeira e reformarmo-nos enquanto relativamente jovens.

De resto, diria que o livro é sobretudo aplicável a jovens no início de carreira — afinal ele começou por escrever para a filha enquanto esta ainda era adolescente. Ou seja, não é para quem tenha dívidas e queira livrar-se delas 1, mas sim para quem queira a resposta para “o que devo fazer com o meu dinheiro, sem grandes complicações e trabalho, para daqui a umas décadas estar financeiramente independente, só trabalhar se quiser (e poder escolher o meu trabalho de acordo com o que me faz feliz, sem estar tão preocupado com o que é que paga melhor)?” E o livro realmente desmistifica bastante a coisa: é mesmo possível investir em “piloto automático”, sem dedicar tempo nenhum a isso além do inicial (a abertura da conta de investimento).

Por outro lado, como disse acima, grande parte do livro está (talvez menos bem organizada, já que foi escrita post a post) no blog do autor, pelo que podem ler o mesmo e tirar de lá toda a informação. Mesmo assim, não me arrependo do que gastei no livro (ou, mais precisamente, no audiobook, lido pelo próprio Jim Collins).

Links (nenhum é de afiliado 2 para já, mas isso pode mudar no futuro; avisarei se tal acontecer):

Tempo OU dinheiro?

Imagina que algum excêntrico te dá a escolher entre as duas hipóteses seguintes:

  1. recebes 1000€, mas tens de o gastar em menos de uma semana, em entretenimento. Ou seja, não podes poupar, investir, pagar dívidas, usar para bens de primeira necessidade, doar, contribuir para uma causa, guardar para pagar e/ou incrementar as próximas férias, etc.; só entretenimento agora (o que inclui, entre outras coisas: livros, cinema, guloseimas, spas, roupas “bonitas”, refeições fora, passeios, viagens, eventos culturais, eventos “radicais”, gadgets (telemóveis, tablets, computadores, consolas, etc.), jogos, etc.), ou:
  2. não recebes nada, mas podes tirar a próxima semana de férias (sem que isso “consuma” os dias de férias já marcados).

Qual escolherias? Eu passei a maior parte da minha vida virado para a 1, mas…

Há pouco, ao pensar em questões tipo: o que é que me faz feliz; o que é que me fazia falta agora, etc., dei por mim — e isto é bem diferente do “eu” dos últimos 25 anos ou isso — a responder: não é tanto dinheiro, mas sim tempo. Porque já tenho imensas “coisas” (em casa e não só); não tenho é tempo para as explorar. E com os 1000€ do exemplo, não poderia fazer mais do que comprar mais “brinquedos” (nos quais incluo livros, jogos, etc.) para adicionar às imensas filas de espera que já tenho.

O que me falta não é dinheiro (nem o que se compra com 1000€ ou isso), é tempo. Tempo para mim: para descansar, relaxar, fazer o que quiser (e não fazer o que não quiser), explorar o que já tenho, estar livre do stress do “amanhã é dia de trabalho“, nem que seja só por algum tempo.

Voltando, então, à pergunta inicial: actualmente escolheria a opção 2, sem hesitação.

Interiorizar isto, de certa forma, ajudou-me recentemente a ficar muito menos consumista, e mais frugal: não há nenhum interesse neste momento em comprar grandes “brinquedos”; há, sim, em conquistar tempo livre para explorar os que já tenho (e outras coisas, tipo passear, ir de férias, etc., sem passar tudo a correr, sem estar a contar os segundos até ao próximo dia de trabalho). E isto pode ser conquistado com dinheiro… só que os valores estão numa escala diferente. (E, claro, é tudo impensável enquanto houver dívidas, mas isso é outra história.)

Adoraria, e espero, chegar eventualmente à independência financeira — o que vai implicar inventar novas fontes de rendimento. Mas, até lá, em qualquer altura, o bem mais precioso a conquistar é, para mim, tempo livre. O que até não é impossível (ex. negociar um horário reduzido, com remuneração igualmente reduzida)… mas para isso já teria de estar livre de dívidas.

Bem, falei de tudo e mais alguma coisa, neste post. 🙂 Desculpem tanta divagação. 😉

Gastos semanais: Semana #4 (26 de Maio a 1 de Junho de 2018)

Nota: como habitualmente, os valores em geral são arredondados.

Gastos na conta bancária:

  • 600€ – pagamento dos dois créditos pessoais
  • 250€ – pagamento do cartão de crédito que faltava
  • 25€ – empregada
  • 41€ – compra de roupa
  • 240€ – colchão novo para a cama (o antigo, sobrevivente de uns 15 anos, já tem umas molas a querer a liberdade…)
  • 10€ – refeição fora (vez em que não usei o cartão de refeição)
  • -10€ – electricidade (sim, tem um “menos” no início, eles reembolsaram-me por na vez anterior ter pago mais, devido a ter-me esquecido de dar a leitura, isso depois de uns meses em que andei a gastar mais que o habitual) (mensal)

Gastos no cartão de refeição:

  • 26€ – 3 refeições

Gastos no cartão de crédito:

  • 10€ – assinatura do Office 365 (mensal)
  • 11€ – assinatura do Netflix (mensal)
  • 7€ – assinatura do Google Play Music (mensal)
  • 57€ – renovação anual de vários domínios web (de vários sites que mantenho)
  • 4€ – comics assinados no Comixology

Gastos totais: 1271€. Imenso dinheiro. 🙁 Mais uma vez, parte disto ainda veio da venda dos investimentos da semana passada, senão não daria para fazer tanto. Outra vantagem é que a família, muito generosamente, perdoou-me a prestação do carro este mês por ter de comprar o colchão; assim sendo, só falta uma. Os meus agradecimentos à família, se bem que obviamente não posso citar nomes por querer manter este blog mais ou menos anónimo…

Enfim. Como disse, foi imenso dinheiro, mas — se é que isso conta para alguma coisa — em entretenimento foram somente 22€ — ou seja, 1.7% dos gastos totais. Acho que não me tenho portado completamente mal…

Eu e a Feira do Livro

A 88ª Feira do Livro de Lisboa está a decorrer (até 13 de Junho), e tenho visto vários blogs (incluindo um que vou mencionar no fim do post) a referir como não perdem uma, como adoram ir lá, etc.. Ora, eu não penso ir (como já não vou há anos), se bem que em criança (as in anos 80… ouch!) ia lá todos os anos com a família, e queria aqui divagar um pouco sobre o porquê.

Antes de mais nada, não estou a dizer a ninguém para não ir, ou que é má ideia ir, ou o que quer que seja! Se gostam de ler e/ou da Feira, vão, divirtam-se, aproveitem, sejam felizes, etc.. 🙂 Este post é apenas sobre as minhas razões — de certa forma, é um post mais pessoal do que a maioria deles aqui no blog. Nada aqui são conselhos ou sugestões, OK?

Então vamos lá. Eu nisto 1 sou estranho: adoro ler, mas a feira do livro actualmente apela-me pouco, por várias razões:

  1. prefiro ler as coisas na língua original, se possível, e quase tudo o que leio é de autores anglo-saxónicos, logo as traduções portuguesas interessam-me menos. Sim, sei que não há só coisas em português na Feira, mas há de ser a maioria. Digo o mesmo em relação a livrarias físicas, já agora;
  2. antes de me decidir pela compra de um livro gosto de ver opiniões, críticas, etc., o que tenho imediatamente disponível numa Amazon ou Goodreads, mas não na Feira (ou numa livraria). Bem, nada me impede de parar tudo na Feira (ou livraria) e aceder a esses sites no telemóvel, mas acho que só acabaria por demorar e complicar mais: a cada livro que me parecesse vagamente interessante, “deixa cá ver na net…“;
  3. tenho centenas 2 de livros em árvores mortas em casa, mas nos últimos anos passei a preferir cada vez mais os ebooks, não só para não ocupar espaço (e algumas árvores poderem suspirar de alívio) e acumular menos pó em casa, mas também para os ter sempre comigo — todos eles, não apenas um ou dois — onde quer que esteja. E, mesmo em relação a ebooks…
  4. … o meu tempo livre com os olhos ocupados (conduzir, caminhadas, etc.) é actualmente muito superior ao tempo livre com os olhos disponíveis, pelo que actualmente ando mais virado para audiobooks e podcasts — até já comprei, várias vezes, audiobooks de livros que já tinha (sim, também comprados) como ebooks ou em árvores mortas, só para os poder acabar em dias, em vez de meses;
  5. devido à minha emocionante saga financeira, neste momento tudo o que compro em termos de livros (ou audiobooks) é sobre finanças e desenvolvimento pessoal (em vez de entretenimento) — o que imagino (se bem que não vou lá há décadas) ser menos frequente na feira, que sempre me pareceu mais virada para romances e afins;
  6. ir a uma feira de coisas de que em geral gosto só causaria tentações. Se estivesse em dieta, não iria passear nos meus restaurantes preferidos, pois não? 🙂
  7. o acto de “ir a lojas” (neste caso uma feira, mas também aplicável a centros comerciais, etc.) pode ser “entretenimento” para muita gente (“estás stressado/a? anda comigo às compras, e isso passa-te já!“), mas, como disse num post recente, para mim isso só tem três resultados possíveis: ou 1) saio de lá sem vontade de comprar nada, o que significa que foi completamente aborrecido; ou 2) saio de lá com vontade de comprar uma ou mais coisas, mas resisto, e por isso saio frustrado; ou 3) cedo à tentação e gasto dinheiro que não era suposto gastar, em algo de que não preciso (se só comprei por ver na loja, é porque vivia bem sem isso). Todos esses resultados são negativos;
  8. a minha fila de espera de coisas para ler já é colossal; não faz sentido comprar coisas que só farão essa fila crescer ainda mais;
  9. já mencionei que estamos em época de alergias, e aquilo é ao ar livre? 🙂
  10. … além de que também não sou grande fã de multidões. 🙂

Mas isto sou eu, claro. Repetindo-me: não estou a sugerir a ninguém que não vá. Quem for, aproveite! 🙂

(Nota: este post é uma expansão de um comentário que fiz no blog Diário de uma jovem assalariada.)

Melhorias financeiras desde a criação do blog (e não só)

Este post está escrito de uma forma mais informal, já que começou por ser uma lista somente para consumo próprio. Essa lista foi também iniciada antes de alguns dos últimos posts, pelo que terá uma correcção ou duas — que, pela piada da coisa, decidi deixar ficar. E, por último, o título do post engana um pouco, já que a primeira metade dele é sobre coisas que já fazia antes de começar este blog. Mas, vamos lá…

Já fazia (antes do blog):

  • nada de lanches (em casa ou fora)
  • nada de pequenos-almoços (excepto um café com leite, em casa)
  • nada de idas ao café
    (nada disto foi por razões financeiras, já agora — são mesmo hábitos que adquiri — ou, melhor dizendo, que deixei — com a idade.)
  • evito conduzir (sobretudo em cidades, filas, etc.)
  • já não saio à noite há anos (até devia fazê-lo uma vez ou outra, acho)
  • não fumo, nem consumo… coisas menos legais (bebo álcool, porém)
  • em termos de supermercados: compro sobretudo produtos brancos
  • bebo, e sempre beberei (excepto em certos sítios estranhos, tipo Alentejo, onde ela tende a saber mal) água da torneira
  • não deixo (sempre que me lembro, pelo menos — às vezes ainda escapa alguma coisa) luzes acesas, torneiras abertas, etc. mais do que o necessário (antes era comum deixar uma luz acessa “porque daqui a uns minutos volto”)
  • compro e bebo café para máquina de balão (em vez de cápsulas). Às vezes, por preguiça, até recorro ao café solúvel (que é ainda mais barato, mas acho que só é “bebível” com leite e afins — porém, serve bem para o café (com leite) da manhã)
  • cancelei várias assinaturas: wall street journal, financial times, humble bundle, big fish games, várias revistas (de videojogos, história, etc.)
  • quase nunca compro roupa; em geral só substituo coisas que se estraguem (por acaso até precisava de comprar alguma; já só tenho coisas com vários anos)
  • empregada: não é regular, e só a chamo muito raramente (frequentemente menos que uma vez por mês). Não, não é viável cancelar, eu sou mesmo muito mau em “lidas da casa”, se bem que sou razoável a manter as coisas vagamente aceitáveis por bastante tempo
  • não compro “brinquedos” novos (PCs, tablets, telemóveis, consolas, etc.) há vários anos
  • centros comerciais, e lojas em geral, são de evitar, já que só há três resultados possíveis: ou 1) saio de lá sem vontade de comprar nada, o que significa que foi completamente aborrecido; ou 2) saio de lá com vontade de comprar uma ou mais coisas, mas resisto, e por isso saio frustrado; ou 3) cedo à tentação e gasto dinheiro que não era suposto gastar, em algo de que não preciso (se só comprei por ver na loja, é porque vivia bem sem isso). Todos esses resultados são negativos.

Comecei com o blog:

  • nada de jogos fora do “plano” (Tempest 4000, expansão do Darkest Dungeon, conta VIP no MPQcortei este último, também)
  • não compro mais de um ebook por mês (e actualmente só sobre finanças pessoais, self-improvement, etc.)
  • não compro audiobooks fora da assinatura do Audible (há imensos podcasts grátis, pá! sobre tudo!), e limito esses também aos géneros mencionados no ponto anterior, por enquanto
  • tudo muito mais controlado em termos de comics (só mantenho uma ou outra assinatura), apps (nenhuma compra há um bom tempo, nem há planos para mais no futuro próximo), etc.
  • parei de investir no ETFmatic (primeiro acabar com as dívidas, depois logo se vê)
  • mandei vender os investimentos no ETFmatic (idem) para pagar mais dos cartões de crédito
  • cancelei mais umas assinaturas

A pensar para o futuro (isto é muito por alto, para já):

  • ir a pé para o trabalho mais uma vez ou outra? É melhor esperar que a época das alergias acabe…
  • no restaurante habitual ao pé do trabalho, passar a comer, pelo menos ocasionalmente, “só o prato”, sem bebida, sobremesa ou café? (bom para a saúde, também…)
  • comer carne menos vezes? substituir pelo quê? feijão? (hamburgers de soja e outros substitutos de carne são, em geral, mais caros… a ideia aqui é reduzir gastos sem prejudicar a saúde, não é tornar-me vegan)
  • passar a assinatura do office 365 de mensal para anual (20€ a menos, por ano)?
  • ver que outras assinaturas daria para cancelar? Já tratei de um bom número…
  • tentar reduzir os serviços de telecomunicações contratados (cancelar serviços tipo TV Cine, quando praticamente só vejo Netflix? Baixar a velocidade da internet?)

Pagar dívidas: por que ordem? (parte 4: créditos pessoais e crédito habitação)

(Espero que o “parte 4” no título seja uma boa pista para o facto de ser boa ideia ler as partes 1, 2 e 3 primeiro. 🙂 )

No episódio anterior, o Zé, ao “limpar” as dívidas dos cartões de crédito (e passar a pagar 100% dos mesmos todos os meses, caso os use), já fez, provavelmente, a mudança financeira mais importante que podia fazer: garantiu que, se não alterar o referido pagamento a 100% nem contrair novas dívidas, então irá sempre, para o resto da vida, dever menos que no mês anterior (até, espera-se, um dia não dever nada).

Como é que está, então, a situação do Zé agora? Vamos assumir que a parte 3 durou 2 anos (parece-me uma duração razoável para pagar os 4600 euros do total dos cartões, com os rendimentos que ele tinha disponíveis para isso. Possivelmente até se faria em menos tempo, mas vamos ser conservadores (além de 2 anos ser um número simples)). Nesses 2 anos, naturalmente, o Zé continuou a pagar as mensalidades fixas do crédito pessoal e do crédito habitação que tinha, pelo que actualmente a situação dele é:

A ENTRAR:

Ordenado: 1500€ líquidos por mês (já é talvez tempo de pensar em ser aumentado ou mudar de emprego, não é? 🙂 Mas não vamos complicar, nesta altura.);

A SAIR:

Casa: tem um crédito inicialmente de 100.000€, a pagar 350€/mês durante 30 anos (dos quais já “só” faltam 23)

Cartões de crédito: nada! 🙂

Crédito pessoal:
– entidade JKL, crédito a 6 anos de 16000€, TAN de 9.5%, pagamentos fixos de 300€. Já foram pagos 2 anos e meio, por isso a dívida (como no início se paga mais os juros que outra coisa) estará ainda perto dos 10000€. 1.

Gastos mensais: como vimos anteriormente, o Zé abraçou a frugalidade e continua a viver (contas, alimentação, transportes, etc.) com 400€/mês. Até já se tornou natural para ele; às vezes abana a cabeça ao lembrar-se do seu consumismo passado…

RESULTADO:

Ordenado: 1500€

Gastos mensais + pagamento dos dois créditos = 1050€

Restam: 450€

Crédito pessoal:

O passo seguinte, naturalmente, deverá ser tentar pagar o crédito pessoal (que tem os juros maiores, e ao mesmo tempo é menor) antecipadamente. Aqui… não posso aconselhar directamente, já que nunca o fiz — já cheguei a pagar totalmente créditos deste tipo quando tive dinheiro para o fazer de uma vez (devido a uma herança), mas não tenho experiência em fazê-lo só parcialmente. O que recomendaria ao Zé seria falar com a entidade onde tem o crédito, a ver que opções tem. Por exemplo:

  1. juntar uma boa quantia e pagar uma boa “fatia” do crédito, de forma a reduzir as prestações mensais (idealmente, para permitir de seguida juntar a totalidade do restante);
  2. juntar uma boa quantia e pagar uma boa “fatia” do crédito, de forma a acabar de o pagar mais cedo;
  3. uma combinação das duas anteriores (menor prestação e menor duração);
  4. ver se não é possível duplicar as prestações (o Zé agora tem dinheiro todos os meses para isso), de forma a pagar em metade do tempo (e com menos juros no total).

Como disse, não tenho experiência com isto; do que consegui investigar, estas opções serão possíveis, mas o melhor será sempre falar com a entidade de crédito.

Crédito habitação:

Nesta altura, tendo-se livrado do crédito pessoal, o Zé só tem como gastos regulares 400€ + 350€ = 750€, o que lhe deixa (assumindo que ainda não conseguiu ser aumentado) outros 750€ todos os meses. Aqui ele terá várias opções:

  1. reduzir a frugalidade: o Zé decidiu que já chega de tanta poupança, e que agora vai melhorar o seu nível de vida. Mas aprendeu bem a lição: os cartões de crédito são só para conveniência (ex. compras online), nunca para pagar em vários meses o que não se consegue pagar no momento. A casa continua a ser paga normalmente.
  2. ter filhos: com todos os gastos adicionais que isso implica, e portanto os 750€ já têm para onde ir. A frugalidade (fora o que tiver a ver com o bebé) é mantida, e a casa continua a ser paga normalmente.
  3. tentar pagar a casa mais cedo: é possível, tal como para os créditos pessoais, se bem que os valores necessários para fazer alguma diferença serão bem maiores. A frugalidade é mantida. Mas não recomendaria, normalmente, isto, devido à hipótese seguinte, que é…
  4. investir o dinheiro que resta todos os meses num “index fund” de S&P 500 (ou semelhante): como já mencionei várias vezes neste blog, não faz sentido investir dinheiro com a possibilidade de este render a uns 7% por ano (a média para os últimos 30 anos — obviamente que há anos melhores e piores) enquanto se tem dívidas com juros anuais bem maiores que esses (ex. 15-25%). Mas o caso específico do crédito habitação é uma excepção: os juros são bem mais baixos (normalmente abaixo de 3%), de tal forma que tentar pagá-lo mais depressa é menos eficiente, a longo prazo, do que pagá-lo à velocidade normal, manter a frugalidade, e usar o que resta para investir, todos os meses, num “index fund” bastante abrangente (S&P 500, Total Stock Market, etc.). Claro que estamos a falar de décadas (nem vale a pena pensar em investir na bolsa se não se estiver a pensar em décadas), e toda esta área (sobre a qual penso vir ainda a escrever bastante, no futuro; este não é, afinal, um post sobre investimento) pode ser assustadora para alguns. Mas acredito que, desta forma, teria mais dinheiro daí a 20 anos do que simplesmente tentando pagar a casa mais depressa, e é o que, sabendo o que sei hoje, faria nesta situação.

E é isto. De resto: não mencionei isso com grande ênfase (já que o objectivo desta série de posts é “sair-se do buraco” das dívidas), e assumi que o ordenado se mantém fixo, mas isso, obviamente, não tem de ser assim, e esperaria, nesta história toda, que o Zé também tivesse arranjado formas de aumentar os seus rendimentos (aumentos, promoções, mudanças de emprego, projectos pessoais, “biscates”, venda de coisas compradas na “fase consumista” que estejam a ganhar pó na arrecadação, etc.). Juntando isso à frugalidade, dá para conseguir bem melhor (e em menos tempo) do que aqui demonstrei.

Obrigado desde já pela paciência (acreditam que a minha ideia original era dizer isto num único post? Pois…), e espero que isto seja útil a alguém. Qualquer questão, estejam à vontade para comentar.

Pagar dívidas: por que ordem? (parte 3: cartões de crédito)

(Naturalmente, ler a parte 1 e a parte 2 primeiro — caso contrário, não saberão quem é o Zé, nem a situação actual dele.)

Como vimos na segunda parte, o Zé ganha 1500€ líquidos, mas, desses 1500€, usa logo 840€ para pagar as várias dívidas que tem (ou, no caso dos cartões de crédito, os pagamentos mínimos). Restam-lhe 660€ para o mês todo: contas da casa (água, electricidade, gás, telecomunicações), supermercado (alimentação e produtos para a casa), transportes e entretenimento — que, como o Zé não é muito frugal, em geral não são suficientes. Mas, esperem! Os 840€ para as dívidas incluem 190€ de pagamentos mínimos dos cartões de crédito, e os juros somados dos mesmos são “só” 80€… pelo que restam 110€ disponíveis nos cartões depois de o Zé os pagar, dinheiro esse que ele é “obrigado” a usar durante o mês — caso contrário, o restante do ordenado não seria suficiente.

Espero que esteja a ser mais que óbvio a todos os leitores, até agora, que, sem uma mudança de vida radical, o Zé nunca vai sair do buraco; muito pelo contrário, vai-se afundar cada vez mais.

Mas, vamos tentar dar um final feliz a esta história. O Zé abriu os olhos (mais vale tarde que nunca), apercebeu-se da armadilha em que caiu há anos, e decidiu fazer tudo para sair do buraco.

O primeiro passo, e aqui não há volta a dar, terá de passar por ter mais dinheiro (de “sobra”) todos os meses. A primeira coisa a fazer deverá ser sempre aumentar a frugalidade, de forma a gastar bastante menos por mês. Formas de o fazer fogem ao âmbito deste post; eventualmente a categoria “Frugalidade” deste blog terá mais informação, mas para já sugiro que leiam blogs e livros sobre o assunto. (Note to self: editar esta parte quando essa categoria estiver devidamente preenchida 🙂 )

(A alternativa é arranjar outras fontes de rendimento além do ordenado (ou aumentar as que já existam). Ou, idealmente, fazer ambas as coisas. Para este exemplo, vamos assumir só a frugalidade, mas no fundo o que conta é quanto dinheiro se consegue ter “a mais” do que se tinha, venha de uma coisa, de outra, ou de ambas.)

Vamos, portanto, assumir que, apesar de só ter “descoberto” o conceito de frugalidade anos mais tarde do que devia, o Zé até é um tipo inteligente e com força de vontade, que rapidamente identifica para onde é que estava a ir grande parte do dinheiro (idas ao café? Sorry, não resisti 🙂 ), cortou o que não é essencial na sua vida, arranjou alternativas mais baratas para o que é essencial, e com isto conseguiu reduzir os seus gastos mensais de 770€ (660€ mais 110€ usando os cartões, lembram-se?) para 400€.

Essa pode não parecer uma grande mudança (e sem dúvida que vamos querer fazer mais), mas já permite ao Zé uma alteração importantíssima: não depende mais dos cartões de crédito. Mesmo que continue a pagar só o mínimo de cada um, já significa que a dívida dos mesmos desce todos os meses. Desce bem devagariiiiinho… a pagar só o mínimo, ainda demorará anos a eliminar. Mas já desce, o que não acontecia antes.

Mas, naturalmente, o Zé quer, e vai, fazer melhor. Se lhe sobram 660€ depois de pagar as dívidas todos os meses, e ele vive com 400€, então restam-lhe 260€, que ele vai usar para tentar livrar-se dos créditos o mais depressa possível.

Por onde começar, entao? A ordem que faz sentido, em geral, é: cartões de crédito -> créditos pessoais -> possivelmente o crédito da casa (já lá vamos), por isso, comecemos pelos cartões (que estão todos no limite):

banco ABC: crédito de 2000€, TAN de 25%, pagamento mínimo de 3% (60€), 41.66€ vão para juros;
banco DEF: crédito de 1000€, TAN de 15%, pagamento mínimo de 5% (50€), 12.50€ vão para juros;
banco GHI: crédito de 1600€, TAN de 20%, pagamento mínimo de 5% (80€), 26.66€ vão para juros.

OK, qual “atacar” primeiro? Como vimos na parte 1, há dois métodos considerados eficazes: 1) bola de neve (pagar primeiro o crédito mais pequeno) e 2) avalanche (pagar primeiro o crédito com juros maiores). Se o Zé escolhe o primeiro método, vai usar os 260€ que lhe restam para pagar essa quantia (além do mínimo) no cartão DEF; se preferir o segundo método irá para o cartão ABC.

E este mês… é tudo. Para o mês que vem, e assumindo que o Zé manteve a frugalidade e que continua a viver com 400€ por mês, chega outra vez a altura de pagar as mensalidades das dívidas. Mas, esperem! Como o Zé não usou os cartões, pagou o mínimo em dois, e pagou um deles acima do mínimo, a situação dos mesmos mudou um pouco:

Se escolheu o método bola de neve (crédito DEF primeiro):

banco ABC: crédito de 1981.66€, TAN de 25%, pagamento mínimo de 3% (59.44€), 41.28€ vão para juros;
banco DEF: crédito de 702.50€, TAN de 15%, pagamento mínimo de 5% (35.12€), 8.78€ vão para juros;
banco GHI: crédito de 1546,66€, TAN de 20%, pagamento mínimo de 5% (77.33€), 25.77€ vão para juros.

Pagamento mínimo total: 171.89€ (antes era 190€).

Se escolheu o método avalanche (crédito ABC primeiro):

banco ABC: crédito de 1721,66€, TAN de 25%, pagamento mínimo de 3% (51.64€), 35.86€ vão para juros;
banco DEF: crédito de 962.50€, TAN de 15%, pagamento mínimo de 5% (48.12€), 12.03€ vão para juros;
banco GHI: crédito de 1546,66€, TAN de 20%, pagamento mínimo de 5% (77.33€), 25.77€ vão para juros.

Pagamento mínimo total: 177,09€ (antes era 190€).

(Nota: não pensem que, se o pagamento mínimo ficou menor no método bola de neve, então esse é necessariamente mais eficiente. Pelo contrário, esse método implicará pagar um pouco mais em juros a longo prazo. A vantagem do método bola de neve é sobretudo psicológica, por possibilitar “quick wins”.)

No mês 2, portanto, a história repete-se: o Zé vive com 400€, e depois de pagar o mínimo das dívidas, restam-lhe 260€ para um pagamento adicional num dos cartões… e não só. Os pagamentos mínimos dos cartões baixaram todos um pouco, pelo que resta ao Zé também essa diferença (18.11€ no método bola de neve, ou 12.91€ no método avalanche). Ou seja, o Zé vai pagar, ao todo, 278.11€ ou 272.91€ além do mínimo no cartão que escolheu “atacar” primeiro.

No mês 3 tudo continua: dois cartões baixaram ligeiramente, o terceiro baixou de forma mais significativa, os juros baixaram, os pagamentos mínimos também, e portanto sobra mais dinheiro ao Zé para pagar o cartão prioritário.

E no mês 4… estão a ver como vai acumulando, e ficando um pouco mais fácil cada mês? Claro que é importante manter a frugalidade, sem nunca pensar “hmm, já podia fazer uma compra de 500€ com este cartão, e ando mesmo a ‘precisar’ de um X…“. Mas, assumindo que se consegue, eventualmente um dos cartões estará completamente pago (no caso do Zé, pelo método bola de neve devem ser só uns 4 ou 5 meses para “matar” o cartão DEF — já fiz muitas contas para hoje, daí não dar uma duração exacta 😛 ; com o método avalanche o cartão ABC demorará mais). Com um cartão pago, sobrará bastante mais para pagar os dois que restam, e mais ainda quando restar só um. E, eventualmente, é como se o Zé tivesse sido “aumentado” em 190€.

De forma a garantir que não volta a passar por isto, o Zé, a seguir, vai aos sites de homebanking dos vários cartões (ou telefona, ou vai mesmo aos bancos — há quem prefira), e altera os pagamentos mínimos dos vários cartões de 3-5% para 100%. No futuro, pode usar os cartões por conveniência (por exemplo, para comprar algo na internet), mas nunca mais os usará para comprar agora e pagar no futuro, nunca para coisas que não poderia pagar a pronto nesse momento. E, acima de tudo, nunca mais pagará juros dos cartões.

É agora altura de olhar para os créditos pessoais…

(Pois é, não consegui evitar chegar a uma parte 4, na qual espero finalmente terminar esta série, abordando os assuntos que faltam: créditos pessoais, e “devo tentar pagar a casa antecipadamente?“. To be concluded…)

A seguir: parte 4: créditos pessoais e crédito habitação.

Novidades no OvelhaOstra: nº de comentários, contacto, caching

Interrompemos agora a nossa programação regular para anunciar as seguintes novidades:

  1. Já foi na semana passada, mas os posts passaram a dizer (logo abaixo do título) quantos comentários têm. Sim, a maior parte dos blogs já o faz, mas este theme de WordPress não o fazia. Esse texto é também clickável, e faz ir logo para o primeiro comentário do post (ou o sítio onde os comentários começariam, no caso de ainda não existir nenhum).
  2. Estão a ver a opção “Contacto“, lá em cima? Já funciona. Qualquer problema, digam, please.
  3. Instalei hoje um plugin de caching (basicamente, deve tornar o site mais rápido). Já tive, no entanto, um ou dois problemas técnicos com esse tipo de plugins noutros blogs (ex. formulários não funcionarem, comentários não aparecerem logo, etc.), pelo que agradeço que me comuniquem (ver 2. acima 🙂 ) se tiverem algum problema.

E para já é tudo. A programação regular será retomada dentro de 3… 2… 1… 🙂