Investimento: alguns conceitos básicos

Acções? Obrigações? Fundos? ETFs? Achei que estes conceitos faziam falta na lista, mas ao mesmo tempo, como estão todos relacionados entre eles e as definições são relativamente breves, escolhi fazer um único post. Espero que seja útil. 🙂

S&P 500

Acções

(também conhecidas por “ações” para quem segue o Acordo Ortográfico 🙂 )

Uma acção (“stock“, em inglês) é, na sua definição mais simples, um “pedacinho” de uma empresa, que, depois de comprada, faz de nós “accionistas” da mesma. Uma acção pode ser comprada ou vendida ao preço actual da mesma, e pode (mas não acontece com todas) pagar dividendos aos seus donos (em geral alguns cêntimos por cada acção possuída), normalmente de forma anual, semestral ou trimestral.

Obrigações

Obrigações (em inglês, “bonds”) são, para todos os efeitos, um empréstimo que fazemos a algo em geral “maior” do que nós: muitas vezes o próprio país/estado, mas também podem ser empresas ou outras organizações. Tal como as acções, também podem ser compradas ou vendidas. Tendem a ser menos voláteis (isto é, variar menos) do que as acções.

(NOTA: A sabedoria popular, há uns anos, sugeria que a percentagem de obrigações no nosso portfolio devia ser equivalente à nossa idade: por exemplo, tendo 30 anos, dever-se-ia ter 30% de obrigações (e os restantes 70% em acções), ajustando essas proporções — comprando umas e vendendo outras — à medida que se envelhece. Actualmente, isso é visto (sobretudo na comunidade de independência financeira) como demasiado conservador; faz talvez sentido ter algumas obrigações para servir de “almofada” quando acontecem “crashes” e afins, mas mais do que 10% antes dos 60 anos faz provavelmente pouco sentido, já que acções historicamente rendem bastante mais, por isso ao “apoiarmo-nos” demasiado nas obrigações por um longo período de tempo (ex. décadas) estamos efectivamente a perder dinheiro. Anyway, nada disto são conselhos de investimento, OK? 🙂 )

Fundos mútuos

Fundos mútuos (“mutual funds”) são um conjunto/portfolio de acções (ou possivelmente obrigações, ou até uma mistura de ambas, mas o mais frequente é tratar-se só das primeiras) englobadas num fundo disponibilizado por uma organização, tornando-se a pessoa cliente dessa organização. Estes fundos podem ser geridos ou passivos/de índice.

Um fundo gerido (“managed fund”), como o próprio nome sugere, é mantido por alguém — uma pessoa, ou, mais frequentemente, uma equipa pertencente a uma empresa — que decide, e ajusta, que acções (e possivelmente obrigações, se for um fundo híbrido) fazem parte desse fundo, e em que proporção. Essa pessoa ou equipa, desta forma, tentam antecipar os mercados, na esperança de comprar barato e vender caro, tentando prever/adivinhar o que vai subir ou descer. (Isto é feito normalmente através de análise técnica (ver padrões em gráficos) e análise fundamental (tentar ver se a empresa está “cara” ou “barata”), mas estes conceitos são demasiado complexos para um artigo introdutório, além de que acredito que há uma alternativa mais simples e superior — já lá vamos.) E, naturalmente, essa pessoa, equipa, empresa, etc. não vende os seus serviços barato…

Por outro lado, um fundo de índice (“index fund”) é gerido passivamente, de forma automática; ele simplesmente tenta reproduzir uma lista/índice de acções, como por exemplo o S&P 500, ou o seu equivalente de outro país (ex. o PSI-20 em Portugal), ou até mesmo a totalidade de uma bolsa, ou de todas as bolsas do mundo, e nas proporções apropriadas (ex. se a empresa em primeiro lugar no índice tem 10% do valor do mesmo, então as acções dessa empresa serão 10% do fundo de índice em questão). No caso de um fundo deste tipo (também há fundos de índice mais específicos, por exemplo a seguir empresas só de determinada área, como por exemplo o imobiliário, biotecnologia, etc.), para todos os efeitos, ele “segue” o mercado em questão, subindo quando ele sobe e descendo quando ele desce. Acaba, portanto, por ser equivalente à média do mercado — e, historicamente, têm superado os fundos geridos manualmente. E, como estes fundos não são geridos manualmente, acabam por ter comissões muito mais baixas (normalmente entre 0.07% e 0.25%) do que os referidos fundos geridos.

ETFs

ETF” são as iniciais de “Exchange-Traded Fund”, ou seja, fundo negociado na bolsa. São, portanto, uma união de dois conceitos: acçõesfundos mútuos. Desta forma, permitem acesso fácil e rápido a fundos (normalmente de índice, mas também existem ETFs de fundos geridos manualmente), com a possibilidade de comprá-los ou vendê-los de forma quase instantânea (é igual a comprar ou vender acções individuais), e com tarifas/custos muito baixos, o que os torna actualmente tão populares. Por último, comprar ETFs não nos torna clientes directamente da empresa que os gere (ex. Vanguard, iShares, etc.), já que as compras e vendas podem ser feitas pelo indivíduo directamente numa correctora (ex. DeGiro), se bem que há também a possibilidade de usar um “robo-advisor” como o ETFmatic.

(Actualmente tudo o que tenho é em ETFs, se bem que já “brinquei” com acções individuais há uns anos.) 

Mais juros compostos: o poder de começar mais cedo

Como ainda não vos chateei o suficiente sobre juros compostos, partilho aqui uma demonstração (isto faz-se em um minuto ou dois com uma folha de cálculo tipo Excel) de como, mais do que investir “muito”, o importante é começar cedo.

Tal como no post anterior, vamos assumir que os juros conseguidos são 5% ao ano (como passo a vida a dizer, isso é menos do que a média histórica de um index fund de S&P500 nos últimos 30 anos, por isso é uma estimativa conservadora). Vamos criar aqui duas novas personagens para o exército OvelhaOstra: a Anabela e a Beatriz (sim, as iniciais serem A e B é intencional 🙂 ). Ambas vão investir, tal como a Rita no exemplo anterior, 100€/mês (ou 1200€/ano), durante 25 anos, mas com uma diferença fundamental:

  • a Anabela começa cedo (no ano 1), mas deixa de investir nos últimos 5 anos (anos 21 a 25), ficando só a ganhar juros do que já tem investido;
  • por outro lado, a Beatriz não investe nada nos primeiros 5 anos (anos 1 a 5), mas depois disso investe regularmente até ao ano 25.

Por outras palavras, no fim dos 25 anos, cada uma investiu 1200€ por ano durante 20 anos seguidos (total de 24000€). Como é que acham que as nossas amigas vão estar no fim do ano 25? Mais ou menos na mesma (afinal investiram a mesma quantia, no total)? Ou uma delas terá um pouco mais?

Que tal mais de 10000€ de diferença, a favor da Anabela?

Anabela vs. Beatriz – 25 anos

Querem um gráfico? Arranja-se um gráfico:

Anabela vs Beatriz - gráfico
Anabela vs Beatriz – gráfico

Reparem como, depois do ano 20, a Anabela “abranda” um pouco (por parar de investir), mas  mesmo assim o avanço que tem é mais que suficiente para acabar com 10K€ a mais do que a rival amiga.

Querem mais? Vamos supor que a Beatriz tenta recuperar o tempo perdido e, nos últimos 5 anos, investe o dobro: 2400€/ano. Acham que chega para alcançar a Anabela, que nesses 5 anos continua a não investir mais nada? A resposta é não. Mostrando somente os últimos anos:

A (quase) vingança da Beatriz

Como podem ver, a Anabela continua com uns 4300€ a mais. Ou em gráfico:

A quase-vingança da Beatriz

Em resumo: começar cedo é o mais importante aqui, já que mesmo parando de investir, depois de certo ponto os juros compostos fazem os investimentos continuar a crescer sozinhos. E, para recuperar o tempo perdido, é necessário um investimento bem maior — neste exemplo, vimos que mesmo duplicando o investimento nos últimos 5 anos, não se alcançou quem simplesmente começou 5 anos mais cedo.

Acumulação vs. Investimento: uma experiência

Para ver se animo um bocado o blog 🙂 , decidi há dias iniciar uma experiência, cujos resultados vou partilhar aqui nos próximos tempos. A ideia é desmistificar um pouco o conceito de investimento, já que, pelo que vi em comentários passados, é comum em Portugal ter-se alguma desconfiança em relação a investir na bolsa, preferindo-se contas-poupança, certificados de aforro e afins, cujos juros actualmente são bastante mais baixos do que já foram 1.

Investir, por outro lado, tem um risco maior, já que as acções em questão podem descer abaixo do valor inicial, e de tempos a tempos há os chamados “crashes”, o último dos quais foi em 2008. Muita gente que perde dinheiro nos “crashes” fá-lo devido à natureza humana, que frequentemente faz com que a pessoa tome a acção contrária ao que seria racional fazer — por exemplo, se as acções caíram imenso, a tendência é vender (por uma fracção do preço inicial) antes que caiam ainda mais… mas isso significa que se perdeu efectivamente a maior parte do dinheiro investido. A longo prazo, a tendência dos mercados é sempre subirem; pode é ser necessário aguentar um ou dois anos de “angústia” quando há um “crash”.

(Claro que há o perigo de uma empresa na qual se investiu falir totalmente e perder-se todo o investimento, mas a solução para isso é investir não em empresas/acções individuais, mas sim nos chamados “index funds“, como por exemplo um que siga o S&P 500. Seguindo as maiores 500 empresas dos EUA (que são para todos os efeitos multinacionais, não estão limitadas aos States), se uma delas falir, ou mesmo descer abaixo do top 500, ela é retirada do fundo e substituída por outra, automaticamente. A única forma de se perder tudo num fundo destes, portanto, seria um completo acabar do conceito de “bolsa”, o que só aconteceria numa catástrofe global (ex. III Guerra Mundial). Sem ser isso, por muito que caia, acabará sempre por voltar a subir — é só questão de se ter paciência e não se entrar em pânico.)

A minha ideia, portanto, é a seguinte: pelo menos uma vez por mês (mas podem ser mais vezes), vou “acumular” (transferindo para uma conta secundária, sem juros “palpáveis”) determinada quantia (nunca inferior a 100€), e, ao mesmo tempo, vou investir a mesma quantia. Escolhi o ETFmatic para isto, com um portfolio customizado por mim (que provavelmente é inferior a simplesmente pôr tudo no S&P 500, mas também estou a usar isto para comparar vários tipos de investimento — ou seja, sem dúvida que dá para fazer melhor que isto, seja no ETFmatic seja investindo directamente, por exemplo num broker tipo DeGiro. Depois desta experiência, provavelmente mudarei o portfolio para algo mais eficiente). A escolha do ETFmatic deve-se também à questão de poder simplesmente transferir dinheiro para lá e eles tratarem do resto, incluindo o reinvestimento de dividendos.

Por outro lado, por uma questão de privacidade, não quero aqui divulgar valores. Desta forma, a minha ideia é a seguinte:

  • o valor acumulado será sempre apresentado como 100%;
  • o valor resultado dos investimentos será uma percentagem em proporção ao valor acumulado.

Por exemplo, se tivesse 100€ acumulados e o valor resultante dos investimentos fosse 105€, apresenta-lo-ia como 105%.

A minha ideia é postar sobre estes valores no último dia de cada mês — portanto, a primeira vez será daqui a 20 dias 2. A primeira acumulação e investimento foram feitos no passado dia 30 de Janeiro, mas ainda espero fazer mais uns (sempre valores iguais um ao outro, repito) antes do fim de Fevereiro, quando receber.

Vou tentar fazer isto (sem levantar nada da acumulação ou dos investimentos) pelo menos durante um ano. Isto assumindo que não há emergências…

E os inevitáveis disclaimers:

  • nada disto constitui aconselhamento financeiro / de investimentos, obviamente; estarei só a partilhar os resultados de uma experiência minha;
  • como disse acima, o meu portfolio no ETFmatic está longe de ser o ideal; estou também a comparar, para satisfação de curiosidade pessoal, os vários tipos de ETFs lá (em geral divididos por regiões do mundo), em vez de pôr tudo no que quase sempre é o mais eficiente (S&P 500) ). Sim, estou possivelmente a perder dinheiro pela ciência! 🙂
  • sim, eu sei que um ano não é nada em termos de investimentos; estes devem ser vistos em termos de décadas. As acções tanto podem continuar a subir como tem acontecido desde 2010 ou isso, como pode haver outro “crash” antes do fim do ano. A minha ideia não é dizer “investir é sempre melhor“, é apenas “estão a ver, a bolsa não morde (nem é preciso ser rico para investir)“; 🙂
  • o valor apresentado dos investimentos incluirá o valor actual dos ETFs, somado ao valor já no ETFmatic mas ainda por investir (por exemplo, por o valor restante depois de compra de vários ETFs não chegar para comprar mais uma unidade, ou por ter recentemente recebido dividendos e estes ainda não terem sido reinvestidos), sendo-lhe retiradas quaisquer tarifas cobradas pelo próprio ETFmatic (que são bastante baixas);
  • como também disse acima, a frequência das acumulações/investimentos pode variar, mas 1) serão sempre valores idênticos para cada um; 2) serão no mínimo uma vez por mês, e 3) o valor mensal para cada um nunca será inferior a 100€, a não ser que haja alguma emergência na minha vida.

Por último, e só pela piada da coisa (já que ainda só se passaram 9 dias, por isso isto não quer mesmo dizer nada), partilho o estado actual da experiência:

  • Acumulação: 100%
  • Investimentos: 101.1%