Dica de poupança: criar um “exército” de “mimos”

Provavelmente estarão a achar o título deste post um bocado… estranho. 🙂 Mas passo a explicar.

Um dos grandes problemas — se não o maior dos problemas 1 — quando se quer poupar mais é o consumismo, que é basicamente o que nos leva a gastar dinheiro em coisas de que não precisamos, e que nos vão dar pouco ou nenhum prazer na vida (mas possivelmente bastante stress, quando depois olhamos para a conta bancária e as coisas que ainda faltam pagar…).

Mas o que é que nos leva a agir de forma consumista? Afinal, não me parece que alguém decida, conscientemente, “vou comprar coisas de que não preciso (e que nem vou usar) para depois andar mais stressado com a vida“, não é? Pensando um pouco na questão, e simplificando muito, eu diria que há duas grandes razões que levam uma pessoa a ser consumista:

  1. ostentação / competição com outros (família, amigos, colegas, vizinhos, etc.);
  2. vontade de darmos a nós próprios um “mimo”.

Relativamente à primeira dessas razões, não vou aprofundar aqui (pelo menos neste post); acho que é daquelas coisas que uma pessoa ou vê como um problema e faz por resolver (o que é feito 100% dentro da sua cabeça), ou então escolhe continuar a achar que isso é “a ordem natural das coisas”, e a definir a sua auto-estima pelo preço das coisas que compra.

A sugestão neste post dedica-se a lidar com a segunda razão. Muitas vezes gastamos dinheiro em coisas que, nos nossos momentos mais racionais, admitimos perfeitamente que não nos fazem falta, ou das quais não temos tempo para fazer uso; que vão ficar na prateleira ou no armário, ou então (no caso de guloseimas) na barriga durante umas horas, somente porque na altura nos sentimos um pouco mais “em baixo”, ou mais sozinhos, ou aborrecidos, ou estivemos a fazer alguma coisa que nos tenha custado 2, e achamos que merecemos um mimo, uma recompensa, uma novidade na nossa vida.

E, note-se, não estou a dizer que nunca nos devemos tratar bem; há alturas em que isso faz todo o sentido. Mas acredito que na maioria dos casos não estamos realmente a querer a coisa nova propriamente dita (para se fazer uso da mesma), apenas queremos aquele prazer momentâneo que temos ao 1) ter um “brinquedo” novo, e/ou 2) gastar dinheiro (o que nos faz sentir que temos poder de compra e decisão).

E eu próprio já fui culpado disto no passado, e ocasionalmente a tentação ainda surge (no meu caso, mais no sentido de “deixa-me ir à loja online de X e ver o que é que está lá em promoção” — o que é sempre uma péssima ideia: afinal, isso é admitir que não queremos nada específico, apenas queremos gastar — ou seja, consumir). E, como não somos robots totalmente imunes a tentações, eventualmente descobrimos/inventamos truques para cortar o mal pela raiz.

No meu caso, o que resultou e continua a resultar bastante bem foi aquilo que menciono no título: criar um “exército” de “mimos” (ou fontes de alegria), de forma a poder recorrer a eles quando tiver o tipo de estados de espírito que antes levariam a querer comprar coisas/gastar dinheiro. Sejam livros, videojogos, música, comics, sítios por onde gosto de passear, companhias, 3 gatos altamente ronronantes, um hobby ou dois, fóruns sobre temas que me interessam com conteúdo novo todos os dias… tudo isso me serve para quando estou mais em baixo, ou preciso de alguma novidade na minha vida, de explorar algo que não conheço. E, em geral, sem gastar dinheiro — ou, se é gasto, é em algo que sei que me vai dar prazer, e que vai ser meu (para todos os efeitos) “para sempre”.

E mesmo isso está, em geral, controlado. Por exemplo, adoro ler, desde criança, e isso continua a ser um dos grandes prazeres na minha vida. Mas, sei lá, depois de se ter bem mais de 100 livros na fila de espera, a compra de novos (excepto em casos muito raros) acaba por não ser a pensar em lê-los, mas apenas em tê-los — ou, mais precisamente, em sentir que os tenho… o que, mais uma vez, é consumismo.

Mas, apetece-me ler um livro novo? Tenho imensos por onde escolher. Estou aborrecido e aparentemente sem nada para fazer? Olha, tantos livros (jogos, comics, etc.). A vida anda mais difícil, e sinto que já não me “mimo” há algum tempo? Olha, tantos livros para ler… por onde começar? 🙂

Aqui devem estar a pensar: “espera aí, tanta coisa contra o consumismo, mas isso tudo custou-te dinheiro, também!“. Sim, e, pior, admito que uma boa parte da quantidade destas coisas que actualmente tenho veio de consumismos passados. 🙁 Mas o importante é que parei — e, vá lá, tive mesmo assim o juízo suficiente para comprar coisas que 1) não envelhecem (ler pela primeira vez um livro comprado em 1991 não é pior do que ler um de 2018), e 2) das quais eu realmente gosto; não foi algo só para me sentir bem uns segundos. E tenho/há não sei quantas coisas não-materiais, também.

Resumindo isto tudo (e realmente foi extenso…): a forma melhor de evitar gastar dinheiro porque sentimos que merecemos/estamos mesmo a precisar de um “mimo” é, parece-me, ter já um monte de “mimos” na nossa vida (em casa, etc.) aos quais recorrer. E esses “mimos” nem têm, necessariamente, de ser coisas compradas, ou novas, ou objectos físicos.

Dica de poupança: encarar cada redução de gastos regulares como um “aumento de ordenado”

Esta não é uma dica de poupança incrivelmente específica (mas, também, nem o foram as anteriores; acho mesmo que pequenas mudanças na nossa forma de ver as coisas acabam por ser mais produtivas do que um simples “faz isto e poupas 10€“), e aborda algo que já foi aqui mencionado uma vez ou outra, mas aqui vai:

Já trabalho há uns 25 anos, em diversos sítios, e não só aprendi e aprendo com o meu próprio caso como com os das várias pessoas (familiares, amigos, colegas, conhecidos, etc.) à minha volta, e uma das várias conclusões a que cheguei é que neste país é muito difícil, e raro, ser-se aumentado. Se tivermos skills relativamente raros e procurados, mesmo assim é quase impossível sermos aumentados onde estamos sem 1) sair para outro sítio mais bem pago, ou 2) pedir demissão, ou ameaçar fazê-lo 1. Sem ser isto, muito raramente consegue-se um aumento quase simbólico, seja por (muitos) anos de casa, seja (sobretudo na área da informática) tirando várias certificações.

Sem estes skills? É quase para esquecer. Quem pede um aumento “a bem” recebe a resposta de que “nas circunstâncias actuais é impossível“; quem ameaça sair ouve que “a porta é ali; como tu há muitos“. Quando muito, ficando muito tempo no mesmo sítio e puxando várias responsabilidades adicionais para si próprio/a, eventualmente consegue-se passar a gerir uma equipa, e com isso recebe-se mais um pouco.

E quando digo que não há aumentos, estou a ser literal — nem sequer se tem um aumento mínimo ano após ano de forma a compensar a inflação. É perfeitamente possível, estando exactamente no mesmo emprego e sem aumentar o consumo, ter-se menos poder de compra do que se tinha há 5 anos ou mais…

Isto tudo não foi para vos deprimir — se bem que penso um dia destes escrever mais sobre questões de empregos, aumentos, skills, etc. –, apenas para realçar o meu argumento original: de que aumentos (em Portugal) são algo raríssimo.

E, no entanto, há, para a maior parte das pessoas, uma forma de se ser “aumentado” sem se ter de “dar graxa” ao chefe, meter “cunhas”, ou trabalhar como um fanático durante uma década inteira. Essa forma chama-se, como neste ponto deve ser óbvio para quem ainda esteja a ler 🙂 , cortar gastos regulares.

Cancelaste uma assinatura de algo que te custava 50€/mês? Parabéns, foste aumentado/a em 50€/mês (ou 600€/ano). Parece pouco, não é? Mas não só tiveste um aumento (o que a maior parte das pessoas à tua volta provavelmente não pode dizer), como o fizeste, provavelmente, sem um esforço sobrehumano (de trabalho ou “graxa” 🙂 ). Se ganhavas 500€ líquidos/mês 2, então aumentaram-te em 10% — proporcionalmente foi bem bom, mais uma vez bem superior aos (raros) aumentos “típicos”, e sem dúvida superior à inflação.

E, obviamente, estas reduções aumentos podem acumular uns com os outros. 20€ aqui, 10€ ali, 15€ acolá… eventualmente fomos “aumentados” em 40%, 50% ou mais (depende de quão consumistas éramos) — quando os colegas à volta não tiveram qualquer “aumento”, a não ser que tenham feito o mesmo. E isso mantém-se “para sempre”, se fizermos as coisas bem.

Se isto parece “tudo muito bonito, mas…“, já partilhei aqui o meu próprio caso o mês passado (uns 175€/mês de “aumento”, e entretanto já fiz mais cortes desde esse post). 🙂

A única desvantagem é que eventualmente chega-se um ponto em que já se cortou tudo o que dava para cortar (eu ainda não estou completamente lá, mas vou-me aproximando), e portanto já não se consegue mais “aumentos” desta forma. Aí, se se quiser continuar a incrementar as finanças, há que pensar em aumentar as fontes de rendimemento actuais, seja com aumentos (raros, como vimos), seja mudando de emprego, e/ou seja criando rendimentos passivos. Por outras palavras, cortar gastos tem, inevitavelmente, um limite.

Mas, como também já mencionei, a redução de gastos não é o fim aqui, é só o princípio. 🙂

Dica de poupança: descobrir (e passar a escolher) o “suficientemente bom”

(Tinha mencionado isto no post sobre poupança no supermercado, e depois num comentário, que a Cristina do “Descontos” sugeriu que passasse a post (possivelmente expandindo um pouco), por isso aqui vai.)

Nesse comentário, tinha citado esta parte do post:

para cada tipo de produto, há sempre um nível “suficientemente bom” (que pode ser o produto branco, ou algo um pouco mais caro). Tentar, sempre (excepto talvez para raras ocasiões especiais), comprar coisas nesse nível, e não acima.

e adicionado o seguinte:

Dois exemplos que posso dar disto:

1- os meus gatos não são nada “esquisitos”: conheço quem tenha gatos (ou outros animais) que só comem determinada marca, ou certo produto/sabor específico de determinada marca; os meus, por outro lado, adoram tudo o que lhes der: Friskies, Whiskas, Purina, as comidas mais caras compradas nos veterinários, etc.. Com uma excepção: as diversas marcas brancas (já experimentei Continente, Jumbo, e várias de mercearias diferentes), eles detestam: comem só o mínimo necessário para não morrer à fome, e começam a pedir comida quando ainda têm o prato cheio. Logo, para os alimentar, “poupar” é comprar Friskies ou Whiskas (as marcas não-brancas mais baratas), que eles adoram, e são, portanto, o nível “suficientemente bom“.

2- gosto de beber vinho à refeição. Vinho em garrafas é mais caro, e portanto em geral fica para ocasiões especiais; no dia-a-dia bebo vinho comprado em pacote. Mas muitos desses vinhos são absolutamente intragáveis, ou causam dor de cabeça, ou ambos. Estarei limitado às garrafas? Claro que não; com alguma “investigação”, achei marcas de vinho em pacote que, sem serem as mais baratas, ainda o são mais do que comprar em garrafa, e bebem-se bem. São, portanto, suficientemente boas.

Foram só dois exemplos, mas isto pode-se aplicar a quase tudo na vida. Quero ir passar um fim de semana prolongado na localidade X? De certeza que entre o hotel de luxo e a pensão cheia de ratazanas há um ou mais sítios para ficar que são suficientemente bons (e bem mais baratos que o tal hotel de luxo). Achá-los pode dar algum trabalho (e implicar uma experiência ou duas menos boas, enquanto se procura), mas vale a pena, parece-me.

Como disse, tento fazer isso para tantas coisas da vida quanto me é possível, e ao longo das décadas aprendi, por exemplo no caso do supermercado, quais são as coisas em que os produtos brancos (em geral os mais baratos) são suficientemente bons (e por isso em geral escolho-os sempre, excepto talvez para alguma ocasião especial), e quais aqueles em que as típicas marcas brancas 1 não satisfazem. Por exemplo, na minha (informal) opinião as seguintes coisas 2 podem perfeitamente ser compradas de marcas brancas:

  • temperos
  • conservas
  • produtos de limpeza (incluindo tanto esfregões como detergentes)
  • leite UHT
  • guardanapos de papel
  • sabonetes líquidos

Mas já não as escolheria, por exemplo, para:

  • vinho (excepto para temperar comida)
  • bebidas alcóolicas em geral
  • azeite (para quem aprecia)
  • qualquer coisa mais “gourmet”
  • molhos picantes
  • papel higiénico (em geral os das marcas brancas ou se desfazem todos, ou parecem lixa)
  • comida para gatos (como indicado acima)

Mas isto são só exemplos, e restritos só a uma área (supermercado). Como disse acima, isto aplica-se a muitas outras coisas, incluindo estadias, restaurantes, até mesmo pessoas/empresas contratadas. Entre o “horrível mas barato” e o “de luxo mas caro”, há sempre um ponto — muitas vezes mais perto, em termos de preço, do “barato” que do “caro” — em que a qualidade é suficiente. Achar esse ponto para cada coisa, obviamente, requer experiência — que não tem necessariamente de vir de nós próprios, podemos em geral também aprender com outros (familiares, amigos, autores de blogs, etc.) — mas vale, parece-me, a pena. Sobretudo pela poupança que se consegue (sobretudo acumulada, ano após ano), mas também pela subida na qualidade das coisas que compramos/alugamos/contratamos, já que passamos a saber evitar o “horrível” nas várias áreas. Os meus gatos, por exemplo, agradecem. 🙂

Dica de poupança: Cancelar tudo, e mais tarde reactivar o que fez mesmo falta

(Sim, é mais uma categoria no blog. Não vai ser uma série numerada (como a do pagamento de dívidas, ou as listas de recomendações de blogs, livros, etc.), porque cada dica em geral é independente das outras, mas dá para consultar as várias dicas (neste momento ainda só há esta) pela categoria “Dicas de poupança”.)

Já tinha ouvido falar desta dica num episódio anterior do podcast Bigger Pockets Money (o episódio 10, cuja convidada é a autora do blog Frugalwoods), mas o episódio que ouvi ontem voltou a mencionar essa técnica. Entretanto, como os últimos posts têm sido mais “divagações” do que outras coisas, achei que era boa ideia variar, partilhando desta vez uma dica mais prática. Juntando as duas coisas…

A dica é só isto: cancelar praticamente tudo 1, durante pelo menos um mês ou dois, e depois reactivar só o que fez mesmo falta.

O “praticamente tudo” pode significar muita coisa (e não estou a condenar nenhuma das que vou mencionar a seguir, apenas a usá-las como exemplos do que se pode cortar temporariamente):

  • assinaturas de publicações (jornais, revistas, etc.) ou serviços (incluindo internet, televisão, telemóveis 2, streaming (Netflix, música, etc.), serviços de limpeza, serviços de entregas, etc.)
  • compras regulares (incluindo guloseimas, bebidas sem ser água da torneira, revistas, jornais, etc.)
  • hábitos (ex. ir jantar fora todos os fins de semana, ir ao café de manhã e a meio da tarde 3, ir de carro para o trabalho em vez de transportes públicos ou a pé, etc.

Por tudo o que ouvi, quando alguém (uma pessoa, um casal, etc.) experimenta fazer isto, o normal é depois reactivar coisas de que realmente precisa, sim, mas — e isto é uma surpresa para a própria pessoa — há outras coisas das quais a pessoa julgava que ia sentir imensa falta, mas não sentiu. Por exemplo:

  • afinal sabe-nos melhor jantar em casa na maior parte dos sábados do que ir sempre a um restaurante“, ou
  • afinal não preciso do serviço de dados móveis, tenho wi-fi em casa e no trabalho“, ou
  • depois do choque dos primeiros dias, diverti-me muito mais durante o último mês a fazer outras coisas, em vez de vegetar à frente da televisão como sempre fazia“.

Possivelmente até aprendemos algo de novo acerca de nós próprios, o que é sempre bom. 🙂 Além disso, muitas vezes o facto de, durante o tal mês ou dois, nos apercebermos de que efectivamente precisamos de determinada coisa faz com que procuremos e encontremos uma alternativa grátis (ou pelo menos bastante mais barata), que depois descobrimos que nos satisfaz perfeitamente, e devido a isso, mesmo quando a experiência termina, já não pecisamos de reactivar a coisa (compra regular, serviço, hábito, etc.) em questão.

Eu próprio ainda não fiz isto na minha vida intencionalmente, como uma experiência — se bem que já cancelei N coisas nos últimos meses por uma questão de poupança, e ainda posso vir a cancelar mais. Mas sou capaz de fazer umas experiências neste sentido, nos próximos tempos — não só para conseguir poupar mais, mas também — e talvez isto seja ainda mais importante — para separar aquilo que efectivamente me faz falta daquilo que só julgo que faz.