Dica de poupança: encarar cada redução de gastos regulares como um “aumento de ordenado”

Esta não é uma dica de poupança incrivelmente específica (mas, também, nem o foram as anteriores; acho mesmo que pequenas mudanças na nossa forma de ver as coisas acabam por ser mais produtivas do que um simples “faz isto e poupas 10€“), e aborda algo que já foi aqui mencionado uma vez ou outra, mas aqui vai:

Já trabalho há uns 25 anos, em diversos sítios, e não só aprendi e aprendo com o meu próprio caso como com os das várias pessoas (familiares, amigos, colegas, conhecidos, etc.) à minha volta, e uma das várias conclusões a que cheguei é que neste país é muito difícil, e raro, ser-se aumentado. Se tivermos skills relativamente raros e procurados, mesmo assim é quase impossível sermos aumentados onde estamos sem 1) sair para outro sítio mais bem pago, ou 2) pedir demissão, ou ameaçar fazê-lo 1. Sem ser isto, muito raramente consegue-se um aumento quase simbólico, seja por (muitos) anos de casa, seja (sobretudo na área da informática) tirando várias certificações.

Sem estes skills? É quase para esquecer. Quem pede um aumento “a bem” recebe a resposta de que “nas circunstâncias actuais é impossível“; quem ameaça sair ouve que “a porta é ali; como tu há muitos“. Quando muito, ficando muito tempo no mesmo sítio e puxando várias responsabilidades adicionais para si próprio/a, eventualmente consegue-se passar a gerir uma equipa, e com isso recebe-se mais um pouco.

E quando digo que não há aumentos, estou a ser literal — nem sequer se tem um aumento mínimo ano após ano de forma a compensar a inflação. É perfeitamente possível, estando exactamente no mesmo emprego e sem aumentar o consumo, ter-se menos poder de compra do que se tinha há 5 anos ou mais…

Isto tudo não foi para vos deprimir — se bem que penso um dia destes escrever mais sobre questões de empregos, aumentos, skills, etc. –, apenas para realçar o meu argumento original: de que aumentos (em Portugal) são algo raríssimo.

E, no entanto, há, para a maior parte das pessoas, uma forma de se ser “aumentado” sem se ter de “dar graxa” ao chefe, meter “cunhas”, ou trabalhar como um fanático durante uma década inteira. Essa forma chama-se, como neste ponto deve ser óbvio para quem ainda esteja a ler 🙂 , cortar gastos regulares.

Cancelaste uma assinatura de algo que te custava 50€/mês? Parabéns, foste aumentado/a em 50€/mês (ou 600€/ano). Parece pouco, não é? Mas não só tiveste um aumento (o que a maior parte das pessoas à tua volta provavelmente não pode dizer), como o fizeste, provavelmente, sem um esforço sobrehumano (de trabalho ou “graxa” 🙂 ). Se ganhavas 500€ líquidos/mês 2, então aumentaram-te em 10% — proporcionalmente foi bem bom, mais uma vez bem superior aos (raros) aumentos “típicos”, e sem dúvida superior à inflação.

E, obviamente, estas reduções aumentos podem acumular uns com os outros. 20€ aqui, 10€ ali, 15€ acolá… eventualmente fomos “aumentados” em 40%, 50% ou mais (depende de quão consumistas éramos) — quando os colegas à volta não tiveram qualquer “aumento”, a não ser que tenham feito o mesmo. E isso mantém-se “para sempre”, se fizermos as coisas bem.

Se isto parece “tudo muito bonito, mas…“, já partilhei aqui o meu próprio caso o mês passado (uns 175€/mês de “aumento”, e entretanto já fiz mais cortes desde esse post). 🙂

A única desvantagem é que eventualmente chega-se um ponto em que já se cortou tudo o que dava para cortar (eu ainda não estou completamente lá, mas vou-me aproximando), e portanto já não se consegue mais “aumentos” desta forma. Aí, se se quiser continuar a incrementar as finanças, há que pensar em aumentar as fontes de rendimemento actuais, seja com aumentos (raros, como vimos), seja mudando de emprego, e/ou seja criando rendimentos passivos. Por outras palavras, cortar gastos tem, inevitavelmente, um limite.

Mas, como também já mencionei, a redução de gastos não é o fim aqui, é só o princípio. 🙂

  1. coisa que, se faço, é final — se só me aumentam nessas circunstâncias, então não estou numa empresa onde queira continuar
  2. acho que é um pouco abaixo do ordenado mínimo actual, mas vou usar esse número para simplificar as contas

6 comentários em “Dica de poupança: encarar cada redução de gastos regulares como um “aumento de ordenado””

  1. O meu comentário vai um pouco de encontro as tuas duas ultimas publicações:

    E já agora, deixo aqui escrito, que gosto da forma leve como escreves.

    “Cancelaste uma assinatura de algo que te custava 50€/mês? Parabéns, foste aumentado/a em 50€/mês (ou 600€/ano).” OK, muito bonito sim sr. A verdade, e é o que eu vejo por aqui, o que não significa que por esses lados (sejam eles quais forem – arredores de Lisboa, certo? 😉 ) possa ser diferente, as pessoas poupam 50€ num mês, porque acharam que “aquele” gasto que lhes roubava aqueles 50€ era supérfluo e evitável, mas no mês seguinte já andam a procurar onde os gastar. Aqui é assim, o povo ainda olha, principalmente na faixa dos 30’s, para o economizar/investir com olhos fechados. Se consigo poupar 50€ em saídas a noite, possivelmente ser-me-ão uteis para comprar aqueles tennis muito “loucos”… :/ ok, evidenciei dois temas supérfluos, é o objetivo. Porque há gente assim, de aparências.

    Ninguém está a pensar a prazo. seja curto, médio ou longo…

    Ultimamente tenho acompanhado blogues brasileiros sobre IF, poupanças e afins… É todo um mundo de temas debatidos que não se encontra em sites/blogues portugueses. Nem há comparação, aliás, nem há registo de blogs portugueses, pelo menos em quantidade, como eles. Ok, menos povo? sim. Ok, a situação deles é favorável? não tanto. Mas vejamos, estou neste momento a seguir blogs com anos e anos de registo, onde é que em Portugal existe esta preocupação? Este registo? Este interesse?
    Vejo tudo demasiado morto. O dinheiro chega a ser tabu entre um dos grupos de amigos que tenho… não se fala, não se comenta, nada… Somos só mulheres, isso poderá querer dizer alguma coisa?

    Somos um povo reservado? Estamos habituados a andar com a corda na garganta e a suspirar de alivio quando ganhamos novo ordenado? Eu sei lá…

    Mas isto tudo para deixar a minha opinião, quando se ganha “50€” a mais, seja por aumento seja por corte de despesa, o pensamento é direcionado para “e agora? o que posso fazer com este dinheiro a mais?”. Investir ou poupar é sempre a ultima opção… penso eu, pelo que observo do que me rodeia :/

    1. Primeiro, obrigado pelo elogio. 🙂

      De facto, parece que as pessoa só poupam (a custo, com grande “sacrifício pessoal”, etc.) numas coisas para depois gastarem noutras — muitas vezes até de forma completamente impulsiva. E se lhes chamam a atenção (o que nunca faria a um estranho, mas talvez a alguém que já se tenha lamentado de estar sempre “à rasca” de dinheiro), a resposta é inevitavelmente “ah e tal, só temos uma vida, há que aproveitar, um dia vamos estar todos mortos”. Como se gastar dinheiro fosse a única forma de “viver a vida”… 🙂 E lá batemos no imenso “sacrifício” que é não gastar quando apetece — daí eu insistir tanto aqui na questão de se alterar mentalidades, em vez de apenas comportamentos…

      E, sim, concordo que em Portugal não parece haver ninguém a falar mais a sério destes temas. Não sei porque é que no Brasil há mais; acho que eles apanham mais da cultura norte-americana, não sei; quase tudo o que existe nos EUA tem um equivalente brasileiro, mas o mesmo não se verifica cá. Quando comecei este blog em Maio, pesquisei o que já havia sobre estas coisas (e foi daí que achei o teu, entre outros), mas — e isto sem querer insultar/ofender/minimizar/criticar ninguém — parecem ter pouca ambição, e contentar-se em “gatinhar” para o resto da vida, em vez de aprender a andar, correr, voar, etc..

      Não sei; acho que o que faz sentido (muito por alto) em termos de dinheiro é:

      1- cortar os gastos supérfluos
      2- aumentar os rendimentos
      3- pôr o dinheiro a fazer mais dinheiro
      4- melhorar a vida (incluindo eventualmente só trabalhar se se quiser)

      Mas… não sei, parece que neste país nos contentamos em permanecer no passo 1 para toda a vida (e sempre a custo, já que a mentalidade continua a ser sempre “apetecia-me imenso gastar, mas tenho de me controlar”). Eu quero mais, acredito em mais, acredito que consigo mais, mesmo depois de todos os erros/dívidas do passado. Acredito em passar de “principiante” a “avançado”, e não estar ainda preocupado com as mesmas coisas básicas daqui a 10 anos. E com este blog puxo por mim — se eventualmente também for útil a outros, tanto melhor.

      Ah, e, sim, há imensos tabus em relação a dinheiro (daí, talvez, também ninguém querer passar do passo 1, acima). “Ambição” é considerada uma coisa má — mas qual é o mal de querermos melhorar realmente a nossa vida? Ordenados e afins são completamente secretos, mesmo entre amigos. Alguém que pense e fale a sério destes assuntos acaba por ser visto como “forreta”, “ganancioso”, “só pensa em dinheiro”, “materialista” (o que tem piada, já que eu quero o dinheiro sobretudo para ter uma vida mais descansada e com mais tempo para mim, não é para mansões e iates…), “pensa que é o Tio Patinhas”, etc..

      Bem, eu e a minha mania de escrever comentários enormes… 😉

  2. Sim, talvez se prenda um pouco pela cultura americana, também não sei, mas poderá mesmo ser por ai…

    Concordo em parte, que sim, somos um povo acomodado. Pelos costumes dos nossos anteriores, pela nossa história o habito vai ficando e o importante é ter saúde. E atenção, é mesmo!
    Mas a mim o que me irrita de um modo que me deixa logo o sangue a ferver é “tu só vives esta vida pá! deixa de ser forreta”, -porra- será que eu não posso querer viver “esta vida” ao domingo à tarde em casa a ver um filme de tv (que eu já pago), ou à beira de um rio com um lanche (que eu já paguei) ao envés de me enfiar em shoppings ou restaurantes?

    Têm o desplante de me perguntar porque poupo tanto mas ficam irritados e acham inoportuno se eu teço comentários de que não deviam ser tão consumista… Não estamos em pé de igualdade? Eu tenho de levar numa boa e os outros não, porque é ofensa…. (?)

    Confesso que ando na fase 2 – a aumentar rendimentos. Da minha atividade profissional não dá para “poupar” mais, e podes acreditar, não dá mesmo. Já cortei o que tinha a cortar e já só vivo a pagar o “obrigatório” – combustível, telefone, alimentação, seguros, … Mas ando a tentar expandir a hipótese de amealhar mais uns trocos. Não tem corrido mal, e já tenho em vista part-time a iniciar em setembro (dois diferentes) – algo que me consome pouco tempo.

    Fazes bem em acreditar que chegaras longe, senão tu, quem? E alem disso nos teus sonhos comandas tu. Só desejo boa sorte e vou passando por aqui para acompanhar o trajecto 🙂

    Sobre os tabus, o pior é que eu com os meus pais (nos 50’s) falo abertamente e de modo a que a mínima coisa seja ponderada, com o grupo que referi (raparigas entre 26-30) não se fala porque “ahm por favor, não vamos falar de dinheiro, já basta a depressão na conta bancária”. Cada um é livre, sim é. Não condeno atitudes. Mas à dias em que me aborreço porque sou o alvo de miras que deviam era abrir os olhos.

    1. Quanto às outras pessoas, já aprendi que não vale a pena, a não ser que sejam elas inicialmente a pedir opiniões/conselhos. Se alguém nos diz que está a pensar comprar X, ou que acabou de comprar, e nós dizemos algo como “será que é boa ideia? precisas mesmo disso? não haverá uma alternativa mais barata? não era melhor poupares/investires? etc.”, reagem quase violentamente: “o dinheiro é meu! Faço o que quiser com ele!“. Como se estivessemos a tentar tirar-lhes alguma coisa… Ou isso, ou então estamos a repetir o que a vozinha dentro deles já lhes disse, e que eles escolheram ignorar. Enfim, não dá para ajudar quem não quer ser ajudado. Mas o que é curioso é que noutros assuntos as pessoas em geral até são mais receptivas a sugestões alheias…

  3. Olá!
    Creio que muitas vezes o problema das pessoas é esse mesmo: quando conseguem um aumento (seja um aumento de rendimentos ou por poupança) o primeiro pensamento é: que crédito vou fazer?
    Quando na realidade o pensamento deveria ser: é mais um pouco para colocar todos os meses na poupança.
    Quando no ano passado troquei de trabalho e deixei de pagar transporte (que me consumia mais de 20% do ordenado) esse valor foi automaticamente canalizado para a poupança. E acho que é a melhor opção…

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