Mudar mentalidades, e não comportamentos

Vi hoje um artigo no Dinheiro Vivo, Cinco conselhos de poupança que resultam até para os mais gastadores. E, sinceraramente, não gostei muito.

Só o título já me faz um pouco de confusão: dá a ideia de que há pessoas “naturalmente” mais gastadoras, como se isso fosse algo genético/intrínseco, como ser alto ou ter olhos azuis. Os conselhos em si até fazem (excepto um, na minha opinião) sentido, se bem que são relativamente básicos: comprar marcas brancas (concordo), evitar refeições fora de casa (concordo em geral, mas no meu caso tenho razões para não o fazer nos dias de trabalho, para já), rever subscrições (concordo), estar atento às promoções (concordo até certo ponto, se bem que promoções podem acabar por ser anúncios, no sentido em que muitas vezes nos levam a levar algo de que não precisamos só porque está em promoção), e preferir pagar em dinheiro (não concordo; acho que é um conselho que só vai dificultar o “tracking” das despesas, o que é das coisas mais importantes para quem quer controlar gastos).

Mas voltemos ao início: esse artigo, e outros, continuam a dar a entender que “ser gastador” é algo inato:, que uns nascem assim e outros têm a sorte de nascer mais poupados. É como uma compulsão, ou um vício, que tem, na melhor das hipóteses, ser “enganado” cada dia da vida, já que, de outra forma, a vontade de comprar coisas/gastar dinheiro é tão forte que ou a pessoa cede, ou sofre (e provavelmente acaba por amanhã gastar noutra coisa o dinheiro que poupou hoje).

Se uma pessoa assim escrevesse um diário, teria entradas como:

  • dia 1: hoje comprei X, não resisi. 🙁
  • dia 2: hoje consegui resistir a comprar Y, e poupei 20€! Yay! 🙂
  • dia 3: aquele Z era lindo, não resisti. Lá se foi a poupança de ontem. 🙁
  • dia 547: hoje resisti e não comprei nada, poupei 30€! 🙂
  • dia 549: quem é que poderia resistir àquele ZZ? Bolas, nunca consigo poupar nada de jeito… 🙁

Percebem onde quero chegar, certo? A pessoa tenta controlar maus hábitos, mas a mentalidade mantém-se sempre a mesma, e por isso os comportamentos que tenta forçar-se a ter não lhe são naturais. Os pequenos sucessos que vai conseguindo são 1) feitos a custo, e 2) efémeros, já que um ou dois dias depois se estraga tudo (muitas vezes com a justificação de “ontem fiz um grande sacrifício, hoje mereço um mimo“. É como alguém em dieta conseguir, a grande esforço, comer só saladas durante um dia ou dois, e depois “mimar-se” passando um dia a encher-se de bolos. Sofreu… e acabou por não ganhar nada com isso. E, talvez o pior de tudo: não há evolução real, ano após ano (como podem ver, as entradas no diário no ano 2 1 não mudaram muito desde o início…).

Parece-me óbvio que há uma solução muito melhor: mudar a mentalidade. Ou seja:

  • descobrir as origens do seu consumismo, e acabar com ele;
  • deixar de associar “prazer” a “comprar coisas”/”gastar dinheiro”;
  • rodear-se, e encher a vida, de “fontes de prazer/alegria/felicidade”, que não custem actualmente dinheiro (isto vai ter um post no futuro);
  • deixar de construir a auto-estima a partir de bens materiais, ou da opinião das pessoas à volta, e dessa forma perder a necessidade de impressionar os outros;
  • decidir o que é que é importante pra si próprio/a (para mim é a independência financeira, mas pode ser algo como pagar dívidas, equilibrar as finanças, mudar a vida — nossa, ou de entes queridos — para melhor, etc.), e pôr isso tão acima de tudo o resto, que o “resto” deixa de ser uma tentação palpável — se nos focamos no que realmente queremos, o que “era fixe” perde a maior parte da importância.

Resumindo: resistir (a custo) a tentações não é produtivo: é um sacrifício, requer atenção constante, e falha frequentemente. Em vez disso, há que mudar a mentalidade de forma a essas tentações serem insignificantes, serem apenas como um pouco de pó movido pelo vento, sem capacidade de nos afectar realmente. Só desta forma é que a poupança passa a ser natural, a ser o “default”, e portanto deixa de ser um sacrifício.

  1. ou 3, se começarmos a contar do 1 — nota-se a minha profissão, não nota?

4 comentários em “Mudar mentalidades, e não comportamentos”

  1. Vi essa publicação ontem, a meio da tarde e achei que era mais do mesmo… É o tipo de dicas que, quem inicia uma busca para se auto ajudar a nível económico, está farto de ler. Mas a verdade é que é por aqui que se começa. Ok, a ultima dica (pagar a dinheiro) pode não se adequar a toda agente. Há quem consiga poupar mais usando o pagamento por multibanco. Todas as restantes acho apropriado 🙂

    1. O problema nessa lista de conselhos, para mim, é o que refiro no post: eles assumem que o consumismo é “genético” e inevitável, e então só sugerem truques para o “enganar”.

      Eu mantenho que as mentalidades podem evoluir — e que isso é a única forma de realmente passar a poupança a “problema resolvido”. 🙂

      1. E olha que há casos que bem parecem coisa da genica bem 😛

        Mas brincadeira à parte, sim a mentalidade pode e deve evoluir. É preciso é coragem. E eu acho que todos temos a capacidade de dar grandes voltas na vida. A mente e o seu poder são algo extraordinário. Quando se está predisposto a conseguir, não há nada que atrapalhe!

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