Inflação do Estilo de Vida

Inflação do estilo de vida (em inglês, lifestyle inflation) é o nome dado ao fenómeno, infelizmente, muito comum, em que uma pessoa “escala” os seus gastos de acordo com o que ganha, acabando por gastar sempre 100% do ordenado (e estando, muitas vezes, “à rasca” na última semana de cada mês, até ao dia de pagamento), independentemente do dinheiro que entra.

De certeza que já ouviram esta história — e talvez até a tenham vivido, ou ainda vivam (espero que não): uma pessoa acaba os estudos, começa a trabalhar, ganhando, por exemplo, 800€, e decide que já consegue sair de casa dos pais. Compra uma casa (a crédito, claro), e um carro com 15-20 anos; a vida não é perfeita, e todos os meses tem de controlar bem os gastos (e ocasionalmente pedir ajuda aos pais, quando ainda tem pouca experiência a fazê-lo).

O trabalho corre-lhe bem, e eventualmente a pessoa em questão é aumentada, passando a receber (OK, isto talvez seja pouco realista neste país…) 1200€. Com esse ordenado, a pessoa decide que vai passar a viver melhor: talvez um carro novo (ou “semi-novo”), talvez roupa nova, talvez uns luxos lá para casa.

Eventualmente muda de emprego, passa a receber (sei lá) 1800€, e imediatamente começa a pensar nas várias coisas que pode comprar. Talvez, finalmente, um carro novo (a crédito, claro). Talvez possa mudar para uma casa maior (transferindo o crédito, aumentando a mensalidade, etc.).

MansãoPerceberam o padrão aqui? Qualquer aumento de ordenado/dinheiro que entra é “automaticamente” acompanhado de um aumento equivalente do custo de vida, muitas vezes de forma pouco ou nada pensada — é quase como se fosse obrigatório. Ganha-se mais, aumenta-se os luxos, e compra-se mais coisas a crédito, de forma a todo o dinheiro que entra ter logo para onde ir… de forma a não só a última semana de cada mês ser “complicada”, mas também as poupanças/investimentos serem zero. Afinal, “o que ganho mal me chega, como é que ainda queres que poupe alguma coisa?!?

Quem admite este comportamento (o que já é raro, diga-se de passagem — muita gente nem se apercebe de que há um ano dizia para si mesma “se somente ganhasse mais 200€, resolvia tudo“, mas agora ganha mais 500€ e continua “à rasca”…) em geral defende-se com algo como “eu compro estas coisas todas, gastando assim a totalidade do que ganho, mas trabalhei para isso, fiz por as merecer!“. Mas… será que essa pessoa é feliz? Ou, ao invés disso, sente-se cada vez mais stressada por não ter quaisquer poupanças, por ter de passar uma semana por mês a contar os cêntimos, e por (possivelmente) te de trabalhar cada vez mais para manter esse nível de vida?

Eu apostaria mais na segunda hipótese.

As soluções que sugeriria para isto passariam por:

  • ter consciência disto (em vez de se fazer as coisas de forma automática, como se fosse algo inevitável);
  • poupar/investir sempre X% do ordenado/dinheiro que entra, pondo isso no início das despesas mensais (isso pelo menos evita o pior do “chapa ganha, chapa gasta”, e garante que as poupanças sobem de acordo com o ordenado);
  • limitar “luxos” a um valor fixo (que pode eventualmente ser aumentado, mas sempre de forma consciente e intencional), em vez de uma percentagem do ordenado;
  • ter melhor memória do passado: se há um ano se pensava “com mais 100€/mês seria tudo tão bom” e agora se ganha mais 400€, é ridículo não se estar “tão bom”;
  • perder a necessidade de impressionar/acompanhar os outros (“keeping up with the Joneses”). Se os colegas de trabalho têm todos BMWs e Mercedes e só temos o (sei lá) Clio ou Punto que há um ano ou dois achámos que seria o mais económico e melhor para a nossa situação, e mais que suficiente para as nossas necessidades… azar. Não determines a tua auto-estima pelo preço das tuas rodas; 🙂
  • vencer o consumismo; em particular, deixar de achar que “felicidade” (ou “aproveitar a vida”) equivale a “gastar dinheiro” ou “ter mais coisas“. Descobrir o valor com que se consegue ter uma vida agradável, e tentar manter os gastos mensais mais ou menos nesse valor, mesmo que a remuneração vá subindo ao longo do tempo;
  • usar o dinheiro adicional de forma inteligente, que realmente melhore a qualidade de vida. Por exemplo, em vez de comprar mais e mais luxos e bens materiais, porque não tentar aumentar o tempo livre, passar mais tempo com a família, eliminar fontes de stress, etc.?
  • por último (e não, isto não é uma contradição), ter consciência de que às vezes faz sentido gastar mais dinheiro — por exemplo, se o emprego actual implica lidar com clientes e andar mais bem vestido, ou se o agregado familiar aumenta. O importante aqui é que esses gastos adicionais não sejam automáticos só porque passou a entrar mais dinheiro.

Um comentário em “Inflação do Estilo de Vida”

  1. Uma outra forma de ver a coisa:

    A pessoa habitua-se, no início da carreira, a pagar prestações de dívidas, pagar contas, etc. e ficar com uns 200€ para o mês inteiro.

    Posteriormente, a pessoa é aumentada, por exemplo em 300€… e o que é que ela faz? Aumenta as prestações das dívidas, as contas, e o etc., de forma a continuar a só lhe sobrar 200€ para o mês inteiro.

    Se mais tarde for aumentada em mais 500€ (por exemplo), o que é que ela faz? Sim, isso mesmo que acabaram de pensar.

    E, mais uma vez, isto em geral não é feito de forma consciente, é automático. A pessoa em questão pode vir um dia a ganhar 5 vezes o que ganha agora, e mesmo assim vai adaptar as despesas a isso, vai continuar a viver “ordenado a ordenado”, a passar a última semana do mês ansiosamente à espera de receber. E sem melhorar realmente a qualidade de vida. E a continuar a pensar que “se ganhasse mais X€, , sim, vivia bem.”

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