Eu e a Feira do Livro

A 88ª Feira do Livro de Lisboa está a decorrer (até 13 de Junho), e tenho visto vários blogs (incluindo um que vou mencionar no fim do post) a referir como não perdem uma, como adoram ir lá, etc.. Ora, eu não penso ir (como já não vou há anos), se bem que em criança (as in anos 80… ouch!) ia lá todos os anos com a família, e queria aqui divagar um pouco sobre o porquê.

Antes de mais nada, não estou a dizer a ninguém para não ir, ou que é má ideia ir, ou o que quer que seja! Se gostam de ler e/ou da Feira, vão, divirtam-se, aproveitem, sejam felizes, etc.. 🙂 Este post é apenas sobre as minhas razões — de certa forma, é um post mais pessoal do que a maioria deles aqui no blog. Nada aqui são conselhos ou sugestões, OK?

Então vamos lá. Eu nisto 1 sou estranho: adoro ler, mas a feira do livro actualmente apela-me pouco, por várias razões:

  1. prefiro ler as coisas na língua original, se possível, e quase tudo o que leio é de autores anglo-saxónicos, logo as traduções portuguesas interessam-me menos. Sim, sei que não há só coisas em português na Feira, mas há de ser a maioria. Digo o mesmo em relação a livrarias físicas, já agora;
  2. antes de me decidir pela compra de um livro gosto de ver opiniões, críticas, etc., o que tenho imediatamente disponível numa Amazon ou Goodreads, mas não na Feira (ou numa livraria). Bem, nada me impede de parar tudo na Feira (ou livraria) e aceder a esses sites no telemóvel, mas acho que só acabaria por demorar e complicar mais: a cada livro que me parecesse vagamente interessante, “deixa cá ver na net…“;
  3. tenho centenas 2 de livros em árvores mortas em casa, mas nos últimos anos passei a preferir cada vez mais os ebooks, não só para não ocupar espaço (e algumas árvores poderem suspirar de alívio) e acumular menos pó em casa, mas também para os ter sempre comigo — todos eles, não apenas um ou dois — onde quer que esteja. E, mesmo em relação a ebooks…
  4. … o meu tempo livre com os olhos ocupados (conduzir, caminhadas, etc.) é actualmente muito superior ao tempo livre com os olhos disponíveis, pelo que actualmente ando mais virado para audiobooks e podcasts — até já comprei, várias vezes, audiobooks de livros que já tinha (sim, também comprados) como ebooks ou em árvores mortas, só para os poder acabar em dias, em vez de meses;
  5. devido à minha emocionante saga financeira, neste momento tudo o que compro em termos de livros (ou audiobooks) é sobre finanças e desenvolvimento pessoal (em vez de entretenimento) — o que imagino (se bem que não vou lá há décadas) ser menos frequente na feira, que sempre me pareceu mais virada para romances e afins;
  6. ir a uma feira de coisas de que em geral gosto só causaria tentações. Se estivesse em dieta, não iria passear nos meus restaurantes preferidos, pois não? 🙂
  7. o acto de “ir a lojas” (neste caso uma feira, mas também aplicável a centros comerciais, etc.) pode ser “entretenimento” para muita gente (“estás stressado/a? anda comigo às compras, e isso passa-te já!“), mas, como disse num post recente, para mim isso só tem três resultados possíveis: ou 1) saio de lá sem vontade de comprar nada, o que significa que foi completamente aborrecido; ou 2) saio de lá com vontade de comprar uma ou mais coisas, mas resisto, e por isso saio frustrado; ou 3) cedo à tentação e gasto dinheiro que não era suposto gastar, em algo de que não preciso (se só comprei por ver na loja, é porque vivia bem sem isso). Todos esses resultados são negativos;
  8. a minha fila de espera de coisas para ler já é colossal; não faz sentido comprar coisas que só farão essa fila crescer ainda mais;
  9. já mencionei que estamos em época de alergias, e aquilo é ao ar livre? 🙂
  10. … além de que também não sou grande fã de multidões. 🙂

Mas isto sou eu, claro. Repetindo-me: não estou a sugerir a ninguém que não vá. Quem for, aproveite! 🙂

(Nota: este post é uma expansão de um comentário que fiz no blog Diário de uma jovem assalariada.)

Melhorias financeiras desde a criação do blog (e não só)

Este post está escrito de uma forma mais informal, já que começou por ser uma lista somente para consumo próprio. Essa lista foi também iniciada antes de alguns dos últimos posts, pelo que terá uma correcção ou duas — que, pela piada da coisa, decidi deixar ficar. E, por último, o título do post engana um pouco, já que a primeira metade dele é sobre coisas que já fazia antes de começar este blog. Mas, vamos lá…

Já fazia (antes do blog):

  • nada de lanches (em casa ou fora)
  • nada de pequenos-almoços (excepto um café com leite, em casa)
  • nada de idas ao café
    (nada disto foi por razões financeiras, já agora — são mesmo hábitos que adquiri — ou, melhor dizendo, que deixei — com a idade.)
  • evito conduzir (sobretudo em cidades, filas, etc.)
  • já não saio à noite há anos (até devia fazê-lo uma vez ou outra, acho)
  • não fumo, nem consumo… coisas menos legais (bebo álcool, porém)
  • em termos de supermercados: compro sobretudo produtos brancos
  • bebo, e sempre beberei (excepto em certos sítios estranhos, tipo Alentejo, onde ela tende a saber mal) água da torneira
  • não deixo (sempre que me lembro, pelo menos — às vezes ainda escapa alguma coisa) luzes acesas, torneiras abertas, etc. mais do que o necessário (antes era comum deixar uma luz acessa “porque daqui a uns minutos volto”)
  • compro e bebo café para máquina de balão (em vez de cápsulas). Às vezes, por preguiça, até recorro ao café solúvel (que é ainda mais barato, mas acho que só é “bebível” com leite e afins — porém, serve bem para o café (com leite) da manhã)
  • cancelei várias assinaturas: wall street journal, financial times, humble bundle, big fish games, várias revistas (de videojogos, história, etc.)
  • quase nunca compro roupa; em geral só substituo coisas que se estraguem (por acaso até precisava de comprar alguma; já só tenho coisas com vários anos)
  • empregada: não é regular, e só a chamo muito raramente (frequentemente menos que uma vez por mês). Não, não é viável cancelar, eu sou mesmo muito mau em “lidas da casa”, se bem que sou razoável a manter as coisas vagamente aceitáveis por bastante tempo
  • não compro “brinquedos” novos (PCs, tablets, telemóveis, consolas, etc.) há vários anos
  • centros comerciais, e lojas em geral, são de evitar, já que só há três resultados possíveis: ou 1) saio de lá sem vontade de comprar nada, o que significa que foi completamente aborrecido; ou 2) saio de lá com vontade de comprar uma ou mais coisas, mas resisto, e por isso saio frustrado; ou 3) cedo à tentação e gasto dinheiro que não era suposto gastar, em algo de que não preciso (se só comprei por ver na loja, é porque vivia bem sem isso). Todos esses resultados são negativos.

Comecei com o blog:

  • nada de jogos fora do “plano” (Tempest 4000, expansão do Darkest Dungeon, conta VIP no MPQcortei este último, também)
  • não compro mais de um ebook por mês (e actualmente só sobre finanças pessoais, self-improvement, etc.)
  • não compro audiobooks fora da assinatura do Audible (há imensos podcasts grátis, pá! sobre tudo!), e limito esses também aos géneros mencionados no ponto anterior, por enquanto
  • tudo muito mais controlado em termos de comics (só mantenho uma ou outra assinatura), apps (nenhuma compra há um bom tempo, nem há planos para mais no futuro próximo), etc.
  • parei de investir no ETFmatic (primeiro acabar com as dívidas, depois logo se vê)
  • mandei vender os investimentos no ETFmatic (idem) para pagar mais dos cartões de crédito
  • cancelei mais umas assinaturas

A pensar para o futuro (isto é muito por alto, para já):

  • ir a pé para o trabalho mais uma vez ou outra? É melhor esperar que a época das alergias acabe…
  • no restaurante habitual ao pé do trabalho, passar a comer, pelo menos ocasionalmente, “só o prato”, sem bebida, sobremesa ou café? (bom para a saúde, também…)
  • comer carne menos vezes? substituir pelo quê? feijão? (hamburgers de soja e outros substitutos de carne são, em geral, mais caros… a ideia aqui é reduzir gastos sem prejudicar a saúde, não é tornar-me vegan)
  • passar a assinatura do office 365 de mensal para anual (20€ a menos, por ano)?
  • ver que outras assinaturas daria para cancelar? Já tratei de um bom número…
  • tentar reduzir os serviços de telecomunicações contratados (cancelar serviços tipo TV Cine, quando praticamente só vejo Netflix? Baixar a velocidade da internet?)

Pagar dívidas: por que ordem? (parte 4: créditos pessoais e crédito habitação)

(Espero que o “parte 4” no título seja uma boa pista para o facto de ser boa ideia ler as partes 1, 2 e 3 primeiro. 🙂 )

No episódio anterior, o Zé, ao “limpar” as dívidas dos cartões de crédito (e passar a pagar 100% dos mesmos todos os meses, caso os use), já fez, provavelmente, a mudança financeira mais importante que podia fazer: garantiu que, se não alterar o referido pagamento a 100% nem contrair novas dívidas, então irá sempre, para o resto da vida, dever menos que no mês anterior (até, espera-se, um dia não dever nada).

Como é que está, então, a situação do Zé agora? Vamos assumir que a parte 3 durou 2 anos (parece-me uma duração razoável para pagar os 4600 euros do total dos cartões, com os rendimentos que ele tinha disponíveis para isso. Possivelmente até se faria em menos tempo, mas vamos ser conservadores (além de 2 anos ser um número simples)). Nesses 2 anos, naturalmente, o Zé continuou a pagar as mensalidades fixas do crédito pessoal e do crédito habitação que tinha, pelo que actualmente a situação dele é:

A ENTRAR:

Ordenado: 1500€ líquidos por mês (já é talvez tempo de pensar em ser aumentado ou mudar de emprego, não é? 🙂 Mas não vamos complicar, nesta altura.);

A SAIR:

Casa: tem um crédito inicialmente de 100.000€, a pagar 350€/mês durante 30 anos (dos quais já “só” faltam 23)

Cartões de crédito: nada! 🙂

Crédito pessoal:
– entidade JKL, crédito a 6 anos de 16000€, TAN de 9.5%, pagamentos fixos de 300€. Já foram pagos 2 anos e meio, por isso a dívida (como no início se paga mais os juros que outra coisa) estará ainda perto dos 10000€. 1.

Gastos mensais: como vimos anteriormente, o Zé abraçou a frugalidade e continua a viver (contas, alimentação, transportes, etc.) com 400€/mês. Até já se tornou natural para ele; às vezes abana a cabeça ao lembrar-se do seu consumismo passado…

RESULTADO:

Ordenado: 1500€

Gastos mensais + pagamento dos dois créditos = 1050€

Restam: 450€

Crédito pessoal:

O passo seguinte, naturalmente, deverá ser tentar pagar o crédito pessoal (que tem os juros maiores, e ao mesmo tempo é menor) antecipadamente. Aqui… não posso aconselhar directamente, já que nunca o fiz — já cheguei a pagar totalmente créditos deste tipo quando tive dinheiro para o fazer de uma vez (devido a uma herança), mas não tenho experiência em fazê-lo só parcialmente. O que recomendaria ao Zé seria falar com a entidade onde tem o crédito, a ver que opções tem. Por exemplo:

  1. juntar uma boa quantia e pagar uma boa “fatia” do crédito, de forma a reduzir as prestações mensais (idealmente, para permitir de seguida juntar a totalidade do restante);
  2. juntar uma boa quantia e pagar uma boa “fatia” do crédito, de forma a acabar de o pagar mais cedo;
  3. uma combinação das duas anteriores (menor prestação e menor duração);
  4. ver se não é possível duplicar as prestações (o Zé agora tem dinheiro todos os meses para isso), de forma a pagar em metade do tempo (e com menos juros no total).

Como disse, não tenho experiência com isto; do que consegui investigar, estas opções serão possíveis, mas o melhor será sempre falar com a entidade de crédito.

Crédito habitação:

Nesta altura, tendo-se livrado do crédito pessoal, o Zé só tem como gastos regulares 400€ + 350€ = 750€, o que lhe deixa (assumindo que ainda não conseguiu ser aumentado) outros 750€ todos os meses. Aqui ele terá várias opções:

  1. reduzir a frugalidade: o Zé decidiu que já chega de tanta poupança, e que agora vai melhorar o seu nível de vida. Mas aprendeu bem a lição: os cartões de crédito são só para conveniência (ex. compras online), nunca para pagar em vários meses o que não se consegue pagar no momento. A casa continua a ser paga normalmente.
  2. ter filhos: com todos os gastos adicionais que isso implica, e portanto os 750€ já têm para onde ir. A frugalidade (fora o que tiver a ver com o bebé) é mantida, e a casa continua a ser paga normalmente.
  3. tentar pagar a casa mais cedo: é possível, tal como para os créditos pessoais, se bem que os valores necessários para fazer alguma diferença serão bem maiores. A frugalidade é mantida. Mas não recomendaria, normalmente, isto, devido à hipótese seguinte, que é…
  4. investir o dinheiro que resta todos os meses num “index fund” de S&P 500 (ou semelhante): como já mencionei várias vezes neste blog, não faz sentido investir dinheiro com a possibilidade de este render a uns 7% por ano (a média para os últimos 30 anos — obviamente que há anos melhores e piores) enquanto se tem dívidas com juros anuais bem maiores que esses (ex. 15-25%). Mas o caso específico do crédito habitação é uma excepção: os juros são bem mais baixos (normalmente abaixo de 3%), de tal forma que tentar pagá-lo mais depressa é menos eficiente, a longo prazo, do que pagá-lo à velocidade normal, manter a frugalidade, e usar o que resta para investir, todos os meses, num “index fund” bastante abrangente (S&P 500, Total Stock Market, etc.). Claro que estamos a falar de décadas (nem vale a pena pensar em investir na bolsa se não se estiver a pensar em décadas), e toda esta área (sobre a qual penso vir ainda a escrever bastante, no futuro; este não é, afinal, um post sobre investimento) pode ser assustadora para alguns. Mas acredito que, desta forma, teria mais dinheiro daí a 20 anos do que simplesmente tentando pagar a casa mais depressa, e é o que, sabendo o que sei hoje, faria nesta situação.

E é isto. De resto: não mencionei isso com grande ênfase (já que o objectivo desta série de posts é “sair-se do buraco” das dívidas), e assumi que o ordenado se mantém fixo, mas isso, obviamente, não tem de ser assim, e esperaria, nesta história toda, que o Zé também tivesse arranjado formas de aumentar os seus rendimentos (aumentos, promoções, mudanças de emprego, projectos pessoais, “biscates”, venda de coisas compradas na “fase consumista” que estejam a ganhar pó na arrecadação, etc.). Juntando isso à frugalidade, dá para conseguir bem melhor (e em menos tempo) do que aqui demonstrei.

Obrigado desde já pela paciência (acreditam que a minha ideia original era dizer isto num único post? Pois…), e espero que isto seja útil a alguém. Qualquer questão, estejam à vontade para comentar.

Pagar dívidas: por que ordem? (parte 3: cartões de crédito)

(Naturalmente, ler a parte 1 e a parte 2 primeiro — caso contrário, não saberão quem é o Zé, nem a situação actual dele.)

Como vimos na segunda parte, o Zé ganha 1500€ líquidos, mas, desses 1500€, usa logo 840€ para pagar as várias dívidas que tem (ou, no caso dos cartões de crédito, os pagamentos mínimos). Restam-lhe 660€ para o mês todo: contas da casa (água, electricidade, gás, telecomunicações), supermercado (alimentação e produtos para a casa), transportes e entretenimento — que, como o Zé não é muito frugal, em geral não são suficientes. Mas, esperem! Os 840€ para as dívidas incluem 190€ de pagamentos mínimos dos cartões de crédito, e os juros somados dos mesmos são “só” 80€… pelo que restam 110€ disponíveis nos cartões depois de o Zé os pagar, dinheiro esse que ele é “obrigado” a usar durante o mês — caso contrário, o restante do ordenado não seria suficiente.

Espero que esteja a ser mais que óbvio a todos os leitores, até agora, que, sem uma mudança de vida radical, o Zé nunca vai sair do buraco; muito pelo contrário, vai-se afundar cada vez mais.

Mas, vamos tentar dar um final feliz a esta história. O Zé abriu os olhos (mais vale tarde que nunca), apercebeu-se da armadilha em que caiu há anos, e decidiu fazer tudo para sair do buraco.

O primeiro passo, e aqui não há volta a dar, terá de passar por ter mais dinheiro (de “sobra”) todos os meses. A primeira coisa a fazer deverá ser sempre aumentar a frugalidade, de forma a gastar bastante menos por mês. Formas de o fazer fogem ao âmbito deste post; eventualmente a categoria “Frugalidade” deste blog terá mais informação, mas para já sugiro que leiam blogs e livros sobre o assunto. (Note to self: editar esta parte quando essa categoria estiver devidamente preenchida 🙂 )

(A alternativa é arranjar outras fontes de rendimento além do ordenado (ou aumentar as que já existam). Ou, idealmente, fazer ambas as coisas. Para este exemplo, vamos assumir só a frugalidade, mas no fundo o que conta é quanto dinheiro se consegue ter “a mais” do que se tinha, venha de uma coisa, de outra, ou de ambas.)

Vamos, portanto, assumir que, apesar de só ter “descoberto” o conceito de frugalidade anos mais tarde do que devia, o Zé até é um tipo inteligente e com força de vontade, que rapidamente identifica para onde é que estava a ir grande parte do dinheiro (idas ao café? Sorry, não resisti 🙂 ), cortou o que não é essencial na sua vida, arranjou alternativas mais baratas para o que é essencial, e com isto conseguiu reduzir os seus gastos mensais de 770€ (660€ mais 110€ usando os cartões, lembram-se?) para 400€.

Essa pode não parecer uma grande mudança (e sem dúvida que vamos querer fazer mais), mas já permite ao Zé uma alteração importantíssima: não depende mais dos cartões de crédito. Mesmo que continue a pagar só o mínimo de cada um, já significa que a dívida dos mesmos desce todos os meses. Desce bem devagariiiiinho… a pagar só o mínimo, ainda demorará anos a eliminar. Mas já desce, o que não acontecia antes.

Mas, naturalmente, o Zé quer, e vai, fazer melhor. Se lhe sobram 660€ depois de pagar as dívidas todos os meses, e ele vive com 400€, então restam-lhe 260€, que ele vai usar para tentar livrar-se dos créditos o mais depressa possível.

Por onde começar, entao? A ordem que faz sentido, em geral, é: cartões de crédito -> créditos pessoais -> possivelmente o crédito da casa (já lá vamos), por isso, comecemos pelos cartões (que estão todos no limite):

banco ABC: crédito de 2000€, TAN de 25%, pagamento mínimo de 3% (60€), 41.66€ vão para juros;
banco DEF: crédito de 1000€, TAN de 15%, pagamento mínimo de 5% (50€), 12.50€ vão para juros;
banco GHI: crédito de 1600€, TAN de 20%, pagamento mínimo de 5% (80€), 26.66€ vão para juros.

OK, qual “atacar” primeiro? Como vimos na parte 1, há dois métodos considerados eficazes: 1) bola de neve (pagar primeiro o crédito mais pequeno) e 2) avalanche (pagar primeiro o crédito com juros maiores). Se o Zé escolhe o primeiro método, vai usar os 260€ que lhe restam para pagar essa quantia (além do mínimo) no cartão DEF; se preferir o segundo método irá para o cartão ABC.

E este mês… é tudo. Para o mês que vem, e assumindo que o Zé manteve a frugalidade e que continua a viver com 400€ por mês, chega outra vez a altura de pagar as mensalidades das dívidas. Mas, esperem! Como o Zé não usou os cartões, pagou o mínimo em dois, e pagou um deles acima do mínimo, a situação dos mesmos mudou um pouco:

Se escolheu o método bola de neve (crédito DEF primeiro):

banco ABC: crédito de 1981.66€, TAN de 25%, pagamento mínimo de 3% (59.44€), 41.28€ vão para juros;
banco DEF: crédito de 702.50€, TAN de 15%, pagamento mínimo de 5% (35.12€), 8.78€ vão para juros;
banco GHI: crédito de 1546,66€, TAN de 20%, pagamento mínimo de 5% (77.33€), 25.77€ vão para juros.

Pagamento mínimo total: 171.89€ (antes era 190€).

Se escolheu o método avalanche (crédito ABC primeiro):

banco ABC: crédito de 1721,66€, TAN de 25%, pagamento mínimo de 3% (51.64€), 35.86€ vão para juros;
banco DEF: crédito de 962.50€, TAN de 15%, pagamento mínimo de 5% (48.12€), 12.03€ vão para juros;
banco GHI: crédito de 1546,66€, TAN de 20%, pagamento mínimo de 5% (77.33€), 25.77€ vão para juros.

Pagamento mínimo total: 177,09€ (antes era 190€).

(Nota: não pensem que, se o pagamento mínimo ficou menor no método bola de neve, então esse é necessariamente mais eficiente. Pelo contrário, esse método implicará pagar um pouco mais em juros a longo prazo. A vantagem do método bola de neve é sobretudo psicológica, por possibilitar “quick wins”.)

No mês 2, portanto, a história repete-se: o Zé vive com 400€, e depois de pagar o mínimo das dívidas, restam-lhe 260€ para um pagamento adicional num dos cartões… e não só. Os pagamentos mínimos dos cartões baixaram todos um pouco, pelo que resta ao Zé também essa diferença (18.11€ no método bola de neve, ou 12.91€ no método avalanche). Ou seja, o Zé vai pagar, ao todo, 278.11€ ou 272.91€ além do mínimo no cartão que escolheu “atacar” primeiro.

No mês 3 tudo continua: dois cartões baixaram ligeiramente, o terceiro baixou de forma mais significativa, os juros baixaram, os pagamentos mínimos também, e portanto sobra mais dinheiro ao Zé para pagar o cartão prioritário.

E no mês 4… estão a ver como vai acumulando, e ficando um pouco mais fácil cada mês? Claro que é importante manter a frugalidade, sem nunca pensar “hmm, já podia fazer uma compra de 500€ com este cartão, e ando mesmo a ‘precisar’ de um X…“. Mas, assumindo que se consegue, eventualmente um dos cartões estará completamente pago (no caso do Zé, pelo método bola de neve devem ser só uns 4 ou 5 meses para “matar” o cartão DEF — já fiz muitas contas para hoje, daí não dar uma duração exacta 😛 ; com o método avalanche o cartão ABC demorará mais). Com um cartão pago, sobrará bastante mais para pagar os dois que restam, e mais ainda quando restar só um. E, eventualmente, é como se o Zé tivesse sido “aumentado” em 190€.

De forma a garantir que não volta a passar por isto, o Zé, a seguir, vai aos sites de homebanking dos vários cartões (ou telefona, ou vai mesmo aos bancos — há quem prefira), e altera os pagamentos mínimos dos vários cartões de 3-5% para 100%. No futuro, pode usar os cartões por conveniência (por exemplo, para comprar algo na internet), mas nunca mais os usará para comprar agora e pagar no futuro, nunca para coisas que não poderia pagar a pronto nesse momento. E, acima de tudo, nunca mais pagará juros dos cartões.

É agora altura de olhar para os créditos pessoais…

(Pois é, não consegui evitar chegar a uma parte 4, na qual espero finalmente terminar esta série, abordando os assuntos que faltam: créditos pessoais, e “devo tentar pagar a casa antecipadamente?“. To be concluded…)

A seguir: parte 4: créditos pessoais e crédito habitação.

Novidades no OvelhaOstra: nº de comentários, contacto, caching

Interrompemos agora a nossa programação regular para anunciar as seguintes novidades:

  1. Já foi na semana passada, mas os posts passaram a dizer (logo abaixo do título) quantos comentários têm. Sim, a maior parte dos blogs já o faz, mas este theme de WordPress não o fazia. Esse texto é também clickável, e faz ir logo para o primeiro comentário do post (ou o sítio onde os comentários começariam, no caso de ainda não existir nenhum).
  2. Estão a ver a opção “Contacto“, lá em cima? Já funciona. Qualquer problema, digam, please.
  3. Instalei hoje um plugin de caching (basicamente, deve tornar o site mais rápido). Já tive, no entanto, um ou dois problemas técnicos com esse tipo de plugins noutros blogs (ex. formulários não funcionarem, comentários não aparecerem logo, etc.), pelo que agradeço que me comuniquem (ver 2. acima 🙂 ) se tiverem algum problema.

E para já é tudo. A programação regular será retomada dentro de 3… 2… 1… 🙂

Pagar dívidas: por que ordem? (parte 2: um exemplo prático)

Leram a parte 1 primeiro? Muito bem! 🙂

Vamos, então, inventar aqui um personagem fictício (e, não, antes que pensem, não sou eu com algumas alterações cosméticas; entre outras coisas, não estou a pagar a casa. (Além de que já mostrei as minhas próprias dívidas, infelizmente bem maiores (excepto a parte da casa), nos posts sobre a evolução mensal das dívidas.) Claro que haverá sempre uma ou outra coisa em comum; afinal, uma pessoa fala sempre com mais confiança do que conhece), cuja situação, parece-me, será familiar a muitos portugueses (possivelmente não, como disse na primeira parte, a maioria dos leitores/as actuais deste blog). Sendo um nome comum cá por Portugal, chamemos a esse personagem ““.

A história do Zé, infelizmente, é tudo menos inédita. Acabou os estudos, arranjou um emprego, foi até em geral subindo na carreira (com uns altos e baixos aqui e ali, mas isso é normal), mas no meio disso veio também uma vida com alguns excessos aqui e ali, competição com amigos e colegas, talvez algum casamento ou namoro de vários anos que não deu certo, e, no meio de tudo isso, cartões de crédito. Sempre os cartões de crédito. De tal forma que, finalmente, o Zé olhou para a sua vida em termos financeiros (ei, mais vale tarde que nunca), e apercebeu-se de que, apesar de até ganhar (tanto quanto sei) acima da média de Portugal, está neste momento a viver uma vida mais “pobre” do que tinha há uns 10 anos, quando ganhava menos. E apercebeu-se, também, da causa disso: mais de metade do seu ordenado vai só para pagar créditos e cartões de crédito. No caso dos cartões, para pagar o mínimo, ou pouco mais — o que faz com que essas dívidas, para todos os efeitos, praticamente não desçam.

Mas, pronto, o Zé “acordou para a vida”, identificou o problema, e decidiu resolvê-lo o mais rapidamente possível (já que neste momento esse problema “estraga-lhe” a vida toda; é como estar a tentar nadar, tendo pesos cada vez maiores agarrados ao corpo). Então, ele decidiu: OK, para começar vou ser frugal ao máximo, vou gastar só o mínimo para sobreviver, ir trabalhar, etc., sem ligar a questões tipo “nível de vida” ou “impressionar outros”. E vou usar o dinheiro a mais para me livrar dos créditos logo que possível.

Onde “atacar” primeiro, então? Para já, vamos olhar para a situação do Zé:

A ENTRAR:

Ordenado: 1500€ líquidos por mês;

A SAIR:

Casa: tem um crédito de 100.000€, a pagar 350€/mês durante 30 anos (dos quais já “só” faltam 25)

Cartões de crédito (todos mais ou menos no limite — sim, isto é normal 🙁 ):
– banco ABC: crédito de 2000€, TAN de 25%, pagamento mínimo de 3% (60€)
– banco DEF: crédito de 1000€, TAN de 15%, pagamento mínimo de 5% (50€)
– banco GHI: crédito de 1600€, TAN de 20%, pagamento mínimo de 5% (80€)

Crédito pessoal:
– entidade JKL, crédito a 6 anos de 16000€, TAN de 9.5%, pagamentos fixos de 300€, ainda só foram pagos 6 meses (pelo que ainda faltará pagar cerca de 15000€ — no início, os pagamentos são quase só para pagar os juros)

Daqui vemos que o Zé precisa de 840€ por mês só para pagar o mínimo dos seus vários créditos. Não espanta que ele cada vez se sinta mais “apertado”, não é? Ainda por cima, ao pagar somente o mínimo dos vários cartões, é revelado um novo problema: juros. Pois é, quais são os juros mensais dos vários cartões, assumindo que estão todos com as dívidas acima mencionadas?

Cartão ABC: 41.66€
Cartão DEG: 12.50€
Cartão GHI: 26.66€

Até podia ser bem pior, já que nenhum destes juros é superior ao pagamento mínimo (caso esse em que pagar só o mínimo faz a dívida aumentar). Mesmo assim, dá para ver que, pagando só esse mínimo, só uma pequena parte desse pagamento é usado para reduzir a dívida; a maior parte do mesmo vai apenas para pagar os juros. Por exemplo, pagando 60€ do cartão ABC, a dívida é reduzida em apenas (60-41.66) = 18.34€. Assumindo que ainda se usa o cartão para, por exemplo, almoçar fora uma vez ou duas, então nem sequer baixará nesse valor; ficará, para todos os efeitos, na mesma. Mas podem ter a certeza de que o banco não se importa mesmo nada de continuar a receber do Zé 41.66€ “grátis” todos os meses. 🙁

Pondo a coisa de outra forma: só em juros dos cartões de crédito, e assumindo que a situação se mantém (o que, até uma pessoa “acordar”, é comum durar anos), o Zé está a dar aproximadamente 970 por ano aos bancos, em juros. É mesmo a “dar”; não é dinheiro que ele possa usar para comprar alguma coisa para ele (já nem falo de poupar ou investir). É efectivamente como pegar fogo a notas. E foi tudo gradual: o Zé usou os cartões de crédito umas vezes para comprar coisas ou cobrir alguma emergência, viu que não tinha de pagar tudo na altura e que assim tinha naquele momento a conta bancária mais “à vontade”, habituou-se a pagar só perto do mínimo de cada um, e depois de uns tempos o Zé não só não tem mais poder de compra do que tinha (pelo contrário), mas passou também a ter um pagamento mensal adicional de uns 190€ — dos quais 80€ vão somente para os juros dos cartões.

Já é mau o suficiente, não é? Mas ainda pode piorar: por usar mais de metade do ordenado só para pagar créditos, e não tendo alterado muito o seu nível de vida, o que resta ao Zé depois de pagar os referidos créditos já não lhe chega para pagar contas, alimentação, transportes, entretenimento, etc., pelo que o Zé é “obrigado” a pagar, todos os meses, mais coisas com os cartões de crédito. Não muito, porque já estão todos no limite, mas pelo menos a diferença entre o pagamento mínimo que fez e o que foi para os juros mensais. Ou seja: as dívidas nunca descem, ponto. E só não sobem ainda mais por já estarem nos limites. 🙁

E isto sem sequer meter o crédito pessoal ao barulho. OK, compreendemos, talvez o Zé precisasse mesmo de um “alívio” naquela altura, talvez quisesse investir nalgum negócio, mas o que é certo é que entretanto esse dinheiro foi-se, mas a prestação mantém-se… E, sem se fazer nada, vai manter-se por mais uns anos.

Este post já vai um bocado longo, não é? Acho que estou a ficar tagarela com a idade. 🙂 Enfim… na parte 3 (que espero ser a última), vamos então ver qual será a forma mais rápida e eficiente de o Zé se livrar destas dívidas.

A seguir: parte 3: cartões de crédito.