Paga-te a ti próprio primeiro

Paga-te a ti próprio primeiro
Fonte: Flickr

Paga-te a ti próprio primeiro” é um conceito (ou conselho, se preferirem) já conhecido há anos — o livro “The Richest Man in Babylon”, de George S. Clason, já o menciona, e esse livro 1 foi publicado em 1926! — mas que, por outro lado, não acho que esteja tão divulgado como seria desejável; eu, por exemplo, no início de 2016 ainda não tinha ouvido falar nele… Enfim, mais vale tarde que nunca. 🙂

A ideia do conceito é que a maior parte das pessoas, incorrectamente, quando recebe o ordenado, começa por pagar as várias contas (electricidade, etc.) e outras despesas regulares — ou seja, está-se a pagar a outros –, e só depois, se sobrar alguma coisa, é que esse dinheiro vai para a poupança e/ou investimento 2. Claro que esse valor tende a ser nulo, já que, para a maior parte das pessoas, os gastos “essenciais” (que muitas vezes não passam de luxos) escalam em proporção ao dinheiro que entra. Por outras palavras, raramente “sobra” dinheiro no fim do mês, e depender dessas “sobras” para criar e fazer crescer um pé de meia, em geral, não resulta.

A alternativa, como deve ser óbvio neste momento, é pagarmo-nos a nós próprios primeiro. Isso implica determinar um valor (que pode ser fixo, tipo X€, ou uma percentagem do ordenado, como 10% — recomendo esta última alternativa, se bem que não necessariamente esse valor), e transferi-lo para a poupança, imediatamente após se receber. Idealmente até se automatiza esse processo, para evitar esquecimentos e/ou tentações. Deve-se ver isto como se fosse uma conta a pagar, tão obrigatória como qualquer das outras — de certa forma até é mais importante a longo prazo, já que servirá para melhorar a nossa vida, e não apenas para a manter como ela está.

Aqui, inevitavelmente, há quem diga algo como “sim, isso é tudo muito bonito, mas é para quem ganha bem! O meu ordenado mal me chega para o mês; já passo a última semana a contar os tostões, e ainda queres que lhe retire uma parte no início do mês?” A resposta a isso é dupla: em primeiro lugar, o facto de a pessoa viver todos os meses “à rasca” é precisamente uma indicação de que ela precisa de passar a ter um pé-de-meia, um fundo para emergências, coisa que obviamente não tem — e, numa emergência, isso pode ser catastrófico. Ou seja, para essa pessoa, poupar é ainda mais importante e urgente do que para alguém que já tenha poupanças razoáveis.

Em segundo lugar, o pagarmo-nos a nós próprios primeiro (tratando, mais uma vez, esse pagamento como uma conta a pagar obrigatoriamente) faz uso da capacidade de adaptação do ser humano. Já que (erradamente) aumentamos os nossos gastos quando temos mais, também é possível fazer o oposto e reduzi-los — mesmo coisas que pensávamos não ser possível reduzir — quando temos menos. Ou seja, uma coisa é dizer “não consigo viver com X-10%”, outra é só ter X-10% e a pessoa ter de se “desenrascar” — quando tem mesmo de ser, em geral arranjamos forma. Pode ser necessário algum esforço adicional e imaginação/novas ideias nos primeiros meses, no sentido de se aumentar a eficiência (por exemplo, procurar alternativas mais baratas, cancelar serviços que se usa pouco, etc.), mas depressa isso se torna um hábito, se torna o “novo normal”. E a vantagem disto é que, a cada mês, temos um pouco mais nosso — cada mês somos um nadinha mais “ricos”.

Como disse acima, recomendo que se tente poupar uma percentagem, em vez de um valor absoluto, já que assim a poupança mensal cresce em proporção à evolução na carreira. Para quem viva ordenado a ordenado, pode ser necessário começar com uma percentagem relativamente baixa, como 2-3%, até se aumentar a eficiência/frugalidade (e/ou os rendimentos). O George Clason recomendava, já há quase 100 anos, 10% como eventual percentagem mínima, tal como o David Bach o continua a fazer, mas há muita gente na comunidade FIRE (Financial Independence, Retire Early) a poupar 50% ou mais (o que, admito, é mais fácil com os ordenados americanos do que com os de cá…), o que pode permitir que uma pessoa se “reforme” depois de trabalhar menos de 20 anos. Espero um dia chegar a tais valores… ou ultrapassá-los, porque não. 🙂

  1. a ser incluído em breve na lista de livros sugeridos
  2. vou escrever somente “poupança”/”poupar” até ao fim do post, mas estou a incluir também “investimento”/”investir” quando o fizer

3 comentários em “Paga-te a ti próprio primeiro”

  1. É fácil reformar-mo-nos ao fim de 20 anos se tivermos ordenados altos e tivermos sido poupados, no meu caso específico em 19 anos tenho poupado imenso mas não dá para me reformar pois os ordenados não eram altos e como tenho um filho de 13 anos então não dá mesmo para me reformar… mas tenho pena 🙂

    Custa mais no início mas com o passar dos anos é mais fácil poupar, eu coloco sempre um valor certo noutra conta no início de cada mês, há alguns anos pensei em ser um valor de 10% mas como o ordenado não era sempre igual arredondei para um valor fixo mais ou menos equivalente aos 10% e no final o que sobrava na conta à ordem mantinha nela até ter um valor por exemplo de 1000€ e colocava numa conta a prazo, nem que fosse por 3 meses, quando tinha por exemplo várias contas de 1000€ no final do ano agrupava. Desde que estou desempregada e apesar de o subsídio de desemprego ser apenas 65% do salário que tinha continuo a colocar o valor que tinha previamente acordado com o banco o que me obriga a fazer mais contas para que no final chegue e ainda sobre algo no final do mês.

    1. A ideia de a poupança ser uma percentagem relativamente alta do que se ganha, em vez de um valor fixo, é dupla: a parte mais óbvia é fazer com que ela suba juntamente com a carreira (e também se adapte caso a vida piore nalgum aspecto, como o desemprego que mencionas). A parte menos óbvia é que, se conseguimos viver com 50% do ordenado durante 20 anos, então é possível parar de trabalhar e viver outros 20 anos com o dinheiro que acumulámos, desde que não alteremos o nosso nível de vida.

      Por exemplo (ignorando o realismo destes valores): se alguém ganha 2000€ e vive todos os meses com 1000€, poupando os outros 1000, significa que em cada mês está a juntar o necessário para viver outro mês. Em um ano, junta o suficiente para viver outro ano sem entrar qualquer dinheiro. E assim por diante.

      Claro que poupar 50% não é fácil (eu não estou nem perto, se bem que, se não tivesse créditos para pagar, acho que conseguia), sobretudo quando se ganha menos, ou se tem despesas adicionais. Mas, mesmo assim, poupar 10%, ou até mesmo 5%, já é melhor do que a maioria das pessoas à volta… 🙂

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