O factor galão

Galão
Imagem: Ondřej Žváček

O factor galão (ou latte factor, em inglês 1 — ou fator galão segundo o Acordo Ortográfico) é o termo que o autor David Bach (O Milionário Automático, etc.) arranjou para a ideia de que pequenos gastos no dia-a-dia não são desprezáveis e podem, ao longo do tempo, fazer uma diferença enorme na situação financeira de cada um — mesmo parecendo “tão pouco”.

Quantas pessoas conhecemos — e talvez nos possamos incluir a nós próprios nelas — que saem de casa em jejum (ou quase), chegam de manhã cedo ao trabalho, e depois vão logo a seguir para o café mais próximo, porque “antes do café, não me digam nada!“, onde, além de um galão (lá está) ou semelhante, não dispensam um croissant, ou um queque, ou um pastel de nata, ou uma sandes. Possivelmente levam mais qualquer coisa para o meio da manhã e/ou para a tarde, isso se não voltarem ao café às 11 da manhã para o “segundo pequeno-almoço” 2. Provavelmente comem pouco ao almoço (afinal, quem é que tem fome tendo comido há relativamente tão pouco tempo?), por isso pelas 16h a fome regressa e, caso não tenham já comprado o lanche de manhã, não dispensam voltar ao café, onde vai mais um bolo, sandes, café, galão, cappuccino, etc..

O problema é que esses pequenos-almoços e lanches são tudo menos baratos… e, no fim do mês, fazem diferença. É fácil uma pessoa gastar 4 ou 5 euros de cada vez (possivelmente até mais), o que, duas vezes por dia, em 20 dias úteis, dá uns 200€ por mês — 300€ se a pessoa não dispensar as idas ao café também nos fins de semana.

Pensem um pouco, se quiserem — sobretudo se o que ganham vos chega “à justa” — em como um aumento de 300€ líquidos poderia facilitar as vossas vidas. Em como cada mês poderia ficar bastante mais folgado. Em como poderiam, todos os meses, poupar mais, ou pelo menos pagar dívidas mais depressa. Pensem no que teriam de fazer, nos vossos trabalhos, para conseguir das chefias um aumento tão significativo, ou — caso recebam em função do trabalho produzido — quantas mais horas teriam de trabalhar todos os meses, para ganhar essa quantia adicional.

E isso é só num mês. Em um ano, seriam 3600€ a mais. Em 10 anos (mesmo sem contar com ganhos de investimentos, que não seriam de se deitar fora), 36000€, obviamente — o que já daria, provavelmente, para eliminar grandes problemas da vida… ou ficar um ano ou dois sem trabalhar, para experimentar criar o próprio negócio, ou simplesmente descansar uns tempos. Ou, simplesmente, para aproximar a independência financeira em 36000€.

Agora, de certeza que alguns dos leitores/as estão a pensar “sim, isso é tudo muito bonito, mas o galão e os bolos são dos grandes prazeres da minha vida, são o que me permite aguentar o dia-a-dia; eu sei que se cortasse poupava dinheiro, mas não teria uma vida que consideraria suportável. (E quem és tu para falar, que já disseste aqui que almoças ao pé do trabalho todos os dias?)

Ao que eu respondo… tudo bem. Não estou aqui para — nem é o objectivo do blog — julgar ninguém (eu próprio já me julgo a mim próprio demais, acreditem). Como se falou recentemente nos comentários aqui, cada um tem os seus próprios valores, as suas próprias prioridades, e tem de decidir por si próprio até onde ir, em termos de poupança — o que é que lhe é “vital”, e o que lhe é apenas “desejável”. E eu próprio (e talvez isso mereça outro post no futuro) sou a favor de se maximizar a relação dinheiro poupado/intensidade do sacrifício, pelo que se têm outra coisa em que podem poupar mais e/ou “sofrer” menos com a alteração… força, vão por aí. E se depois disso quiserem/precisarem de poupar ainda mais, voltem a olhar para esta questão (ou para qualquer outra) — o “ganho” será menor e/ou o sacrifício será maior, mas mesmo assim pode valer a pena. Ou não.

A ideia deste post, portanto, é apenas chamar a atenção de que gastos regulares deste tipo são, ao longo do tempo, muitas vezes bem maiores do que podem parecer à primeira vista. No caso do “galão” (ou, mais precisamente, as idas ao café, duas vezes por dia), conheço efectivamente quem 1) tem esse hábito, e 2) queixa-se do estado das suas finanças, e provavelmente dava tudo para ter mais 300€ por mês… mas não vê a ligação entre as duas coisas.

(E, sim, no meu caso também posso fazer melhor (não nas idas ao café, que já não existem, mas noutras coisas) — tenho de ver onde “atacar”.)

Blog #1: Mr. Money Mustache

(Bem-vindos/as à nova secção do OvelhaOstra: blogs! Tinha-os mencionado quase como um “afterthought” aqui (depois dos livros e podcasts), mas nunca dá para prever a minha própria cabeça, por isso… aqui vai.)

O primeiro blog a ser mencionado não podia, acho eu, ser outro senão o Mr. Money Mustache (ou MMM). Afinal, não só é um dos grandes “fundadores” modernos de todo o conceito de FIRE (Financial Independence/Retire Early), como o blog dele é, basicamente, a razão pela qual me passei a interessar por estes temas — poupança, frugalidade, investimentos, e, claro, a possibilidade de atingir um dia a independência financeira. Ou seja, sem MMM não haveria OvelhaOstra 1.

Como se não bastasse, acho que o blog dele faz (lido por ordem, do primeiro post até ao mais recente, usando os links de “next post“) uma leitura fascinante, que se termina em poucas horas. É informal, até um pouco agressivo (num bom sentido, acho eu), tem sentido de humor, histórias fascinantes para contar, e é impossível não pensar, frequentemente, “eu também consigo fazer isto.” (ou “porque é que só agora é que estou a ouvir isto?“…)

Acho que servirá de inspiração — e fonte de ideias — para qualquer um, quer seja alguém que já se interesse por isto, ou apenas alguém frustrado com a vida, tipo “já trabalho há anos, (possivelmente) até ganho acima da média do país, mas cada mês tenho de passar a última semana a contar tostões; parece que quanto mais ganho mais gasto; os meus cartões de crédito estão sempre no limite; se tivesse uma emergência não saberia o que fazer…” Sim,  uma forma melhor de agir. E, começando bem cedo (nos 20s), acho que, mesmo em Portugal (com os nossos ordenados relativamente baixos, mesmo levando em conta o custo de vida também reduzido), é possível chegar à independência financeira (o que, mais uma vez, não implica que nunca mais se trabalhe na vida) pelos 40 ou isso. (Estando já nos 40s, para mim vai ser mais complicado, mas mesmo assim espero 1) “reformar-me” antes da idade de reforma normal, e 2) não depender da reforma que possa vir a receber. Veremos…)

Um exemplo de um post dele ao qual volto com alguma frequência é este (já de 2012): News Flash: Your Debt is an Emergency!! 2 O melhor, obviamente, é lerem o post, mas muito resumidamente ele critica quem (como eu 🙁 ) tem dívidas de cartões de crédito (ou outras dívidas “más” em geral — a única “boa” é possivelmente a da casa) e, mesmo assim, continua a ter uma vida normal. O exemplo que ele conta é de um colega na faculdade que lhe pediu dinheiro emprestado para pagar as propinas, mas depois continuou a viver a vida “normal” de estudante, a sair à noite, “borgas”, comer fora, etc. – quando ele tinha suposto que o amigo iria viver uma vida frugal ao máximo, de forma a pagar a dívida o mais depressa possível. Segundo o MMM, o amigo acabou por pagar tudo, a questão nem foi essa; foi, sim, o facto de que ele se apercebeu que “as pessoas normais” vivem muito melhor com dívidas do que ele. Para ele, dívidas (sobretudo de cartões de crédito, com os seus juros altíssimos e pagamentos mínimos que só pagam os juros, sem sequer reduzir a dívida) não são algo que “se vai gerindo“, são uma emergência a resolver urgentemente — a comparação que ele faz é estar a ser mordido por um enxame de abelhas assassinas. 🙂

Eu confesso que, apesar de mais de 3000€ de dívidas de cartões de crédito, ainda não entrei em “modo emergência”: continuo a almoçar fora no trabalho (mesmo sendo relativamente barato, e vindo quase tudo do cartão de refeições do empregador, que em geral não dá para ser usado para muito mais do que restaurantes), continuo a ter uma alimentação para além de “feijão em lata, arroz e água”, continuo a ocasionalmente passear, ir de férias (mesmo tendo mais atenção aos gastos do que antigamente), etc.. Mas sei que é possível fazer muito melhor — e o blog #2 (coming soon) será um óptimo exemplo prático disso.

Anyway: Mr. Money Mustache, senhoras e senhores. Recomendo mesmo que comecem pelo primeiro post, e leiam o blog todo — são só umas horas (na minha opinião) bem passadas. Também podem ver a lista de posts (ler de baixo para cima).

Evolução mensal das dívidas #1 (30 de Abril de 2018)

Saiu hoje o mapa de responsabilidades de crédito de Abril, por isso… bem-vindos/as ao primeiro post da série “Evolução mensal das dívidas”, em que listo (de forma arredondada, sempre) as dívidas actuais (créditos e cartões de crédito), e comparo as mesmas com a situação no mês passado. Sendo este o primeiro post da série, a comparação será com o post Situação actual, e planos gerais com que (mais ou menos) comecei o blog, mas vai dar ao mesmo.

Sendo assim, aqui vai:

  • Cartões de crédito: 3275€ (menos 240€ que no mês anterior)
  • Créditos: 31045€ (menos 220€ que no mês anterior)
  • Carro: 666€ (menos 333€ que no mês anterior)

(Nota: já tinha contado no post anterior com a prestação do carro paga no fim de Abril, mesmo não estando ainda disponível o mapa, por isso não há alteração desde então. A próxima será no fim de Maio.)

Cartões + carro: 3941€. (Menciono isto em separado devido ao objectivo que indico no fim do post.)

Total em dívida (incluindo as 2 prestações finais do carro): 34986€.

Evolução dos cartões de crédito + carro: menos 573€.

Evolução total desde o fim de Março: menos 773€. Não foi mau, por um lado, mas por outro lado foi o mês em que recebi o reembolso do IRS; não teria conseguido reduzir tanto se não fosse o dito. Por (ainda) outro lado, tive as férias no início de Maio, onde gastei mais de 150€ (e isto numa casa de familiares emprestada), além de que só mais recentemente é que comecei a melhorar a frugalidade relativa ao entretenimento.

Para já, o objectivo continua a ser acabar Novembro com as dívidas dos cartões 1zero. Não vai ser fácil (até porque se metem as férias de Verão), mas acredito que vou conseguir. 🙂

Gastos semanais: Semana #2 (12 a 18 de Maio de 2018)

Nota: como habitualmente, os valores em geral são arredondados.

Gastos na conta bancária:

  • 16€ – farmácia (anti-histamínicos e spray nasal de água do mar… alergias suckam. 🙁 )
  • 110€ – electricidade (no mês passado não reportei a leitura, e isto ainda são restos de umas experiências que fiz em casa a minar criptomoedas há uns bons meses. O meu valor normal anda à volta de 55€; imagino que para o mês que vem não pague nada. E, sim, agora já tenho um alarme configurado para não me voltar a esquecer.) (mensal)
  • 19€ – Via Verde (tive uma semana de férias no início do mês, no Alentejo) (mensal, quando há)
  • 25€ – reforço do cartão de crédito (dará para ver porquê na secção sobre o mesmo; este é o cartão de crédito das coisas que assino, e tem sempre de ter alguma folga.)

Gastos no cartão de refeição:

  • 40€ (5 refeições)

Gastos no cartão de crédito:

  • 7€- comics assinados no Comixology
  • 15€ – Kickstarter 1

Total: 232€

É algum dinheiro, mas até acho (tentando ser generoso comigo próprio) que não foi assim tão mau. Férias são raras. O Kickstarter foi esporádico. A electricidade, além de ser mensal, por não ter dado a leitura do mês passado foi como se tivesse feito um “adiantamento” sobre o próximo mês, no qual espero não pagar nada ou quase nada. E consegui não mexer nos outros cartões de crédito…

Vendo a coisa de outra forma: os únicos gastos em entretenimento foram os do cartão de crédito: 22€. Podia ser bem pior. 🙂

Poupar no entretenimento

Depois dos créditos — e, em grande parte, uma das principais causas da existência dos créditos — o entretenimento/lazer é um dos meus grandes problemas, sobretudo porque a maior parte das coisas de que gosto (livros, audiobooks, comics, jogos, etc., e também hardware como PCs, consolas, tablets, smartphones, leitores de ebooks, e assim por diante) não são baratas.

Pior, tenho (e isto já vem de há décadas) o péssimo hábito de, quando sinto falta de X (ex. ler), comprar mais X (ex. livros)– quando muitas vezes o problema não é falta de livros propriamente ditos (tenho uma “biblioteca” de centenas por ler, tanto em árvores mortas como em ebooks), mas sim de tempo. 🙁 Mas ando a tentar contrariar esse hábito — não só porque prazeres momentâneos (“tenho um livro novo! hmm, talvez o consiga começar a ler daqui a uns meses…“) não trazem felicidade duradoura, como porque o problema real é sempre a falta de tempo, e isso só se resolverá, um dia, com a… (digam todos comigo) independência financeira.

Aliás, é isto que actualmente trava actualmente muitos dos meus gastos previamente habituais (“este jogo parece fascinante… mas quando é que teria tempo para o jogar? Ah, pois é… 🙁“). Acho que, finalmente, me começo a mentalizar de que gastar mais dinheiro em entretenimento não me traz alegria adicional (por não ter tempo livre para explorar o que comprei) — muito pelo contrário, só adia a resolução do problema (falta de tempo livre e “cabeça” para as coisas, devido à necessidade de trabalhar). Mas, ainda há meses, atravessei uma fase em que, sempre que me sentia um pouco mais em baixo, a minha “solução” era “deixa ver o que está hoje em promoção no Steam ou na Playstation Store…” 😕 1

Mesmo sem contar com a questão do custo das coisas, neste momento também estou mesmo virado para ler/ouvir/ver coisas sobre finanças pessoais, de forma a aprender e/ou motivar-me tanto quanto possível, pelo que, mesmo tendo dinheiro “para gastar”, não iria ser para lazer propriamente dito. Sinceramente, até acho estes temas interessantes, não estou a fazer nenhum sacrifício… só sinto é falta do “resto” na minha vida. Já não me lembro da última vez que passei 8 horas num fim de semana a jogar um jogo de estratégia no PC. 2

Quanto as outros tipos de entretenimento:  sou, parece-me, dos poucos portugueses que não tem o hábito de “ir ao café” 3; posso ir muito ocasionalmente se me convidam, mas não o faço no dia-a-dia. Nem sou guloso em termos de doces e afins. Já não saio à noite há uns anos (até devia fazê-lo de vez em quando; seria saudável). Música: vem toda da assinatura do Google Play Music. Filmes e séries: Netflix. Carro: é um mal necessário; não tiro qualquer prazer da condução, e por isso só mudo de carro quando o anterior avaria de vez — ou seja, não é “entretenimento” para mim — nem tenho qualquer vontade de ter um melhor para impressionar outros, competir com os colegas, etc.. Não acho piada a “ir às compras” — referindo-me aqui ao acto de ir a lojas ver e experimentar coisas; muito pelo contrário, ir a qualquer tipo de superfície comercial é sempre um stress para mim (daí comprar quase tudo online, incluindo coisas de supermercado).

Conclusão: até estou bem numas coisas (acho assustador o que a maior parte das pessoas gasta em idas ao café, por exemplo), e acredito que finalmente aprendi que, se ando meio triste por sentir falta de uma coisa por não ter tempo para ela, então comprar mais dessa coisa não resolve absolutamente nada, só piora a minha situação. Acho que também aprendi a ser menos impulsivo em termos de compras; a pensar sempre, antes de adquirir algo:

  • isto vai mesmo contribuir para a minha felicidade?
  • se comprar isto, vou usar nos próximos tempos, ou vai ficar lá em casa a ganhar pó?
  • sinto falta disto por realmente não ter nada parecido, ou somente por não ter tempo para o que já tenho?
  • estarei a tentar enganar a tristeza gastando dinheiro?

…e assim por diante.

Acho que tem funcionado. A ver se se mantém.

(Nota: este post é uma expansão de um comentário que fiz no blog Diário de uma jovem assalariada.)

Mesadas, e tabus sobre dinheiro

Imagina a situação: queres muito ter X, mas X custa 5 vezes o que te resta todos os meses (depois de pagar contas, pôr de parte o dinheiro para a comida e outros bens de primeira necessidade, etc.). Vamos supôr que não tens nem poupanças nem dívidas. O que fazes?

  1. Desisto; nunca vou ter esse dinheiro, pelo menos enquanto ganhar somente o que ganho.
  2. Compro com o cartão de crédito, e fico a pagar nos próximos 10 meses ou mais.
  3. Poupo durante 5 meses e compro a pronto.
  4. Suborno o ogre com 10 moedas de ouro e duas provisões, para ele me deixar passar.

(Desculpem a última, esta lista de opções fez-me lembrar coisas do passado.  🙂 )

Agora que somos todos adultos, e interessados nestas coisas (finanças pessoais, poupança, etc.), a resposta óbvia será, sem dúvida, a 3 1. Mas, acreditem ou não, passei a infância e adolescência a achar que a única resposta para já era a 1 (a não ser que alguém da família tivesse um ataque de generosidade), e depois passei os 20s e os 30s (e, para vergonha minha, o início dos 40s) a ir sempre para a 2.

E porquê? Não quero, obviamente, culpar outros pelos meus erros (aliás, “culpar” é quase sempre a coisa errada — ao focarmo-nos demais em “culpas”, não estamos a olhar para soluções), mas acho que grande parte do problema foi nunca ter tido mesada, e ter crescido em casas 2 onde falar de dinheiro era tabu.

O resultado disto é que cheguei à idade adulta a acreditar (mesmo que inconscientemente) que o dinheiro era “para gastar”, que a única forma de ter algo que não “coubesse” num ordenado era comprar a crédito, e sem ter mentalizado conceitos complicadíssimos como “não gastar agora, para daqui a uns meses poder comprar o que realmente quero” (já nem falo de outros conceitos super-avançados, tais como “poupar (e, idealmente, investir) X% todos os meses“…).

Note-se, até acho que mesadas não devem ser incondicionais. Acho que devem estar condicionadas a certas coisas (ex. X por cada dia do mês em que o quarto esteve arrumado, mais Y em proporção às boas notas, mais Z por fazer esta ou aquela tarefa em casa, e assim por diante). Afinal, no mundo real ninguém recebe só por existir…

A outra parte do problema foi, como disse acima, o tabu em falar-se de dinheiro. A única “sabedoria” que alguma vez ouvi da minha família — tivesse eu 16 anos, ou 26, ou 36 — não incluo os 6, lá está, por não ter tido mesada) foi “poupa!“, mas nunca me disseram porquê, nunca me falaram de conceitos como juros de cartões de crédito, juros compostos, investimentos, contas-poupança, outros tipos de poupanças, como gerir o ordenado / planear os gastos do mês, etc.. Nada disto; tive de aprender tudo “intelectualmente” por mim próprio, já depois de sair de casa da família, e acho que só “interiorizei” já depois dos 40, quando me comecei a interessar a sério por estes assuntos (e a ler livros, blogs, etc. sobre eles).

O resultado disto, obviamente, foi chegar aos 40 com dívidas e sem poupanças… quando era suposto ser ao contrário.

Mais uma vez, não estou a culpar ninguém pelos meus próprios erros, mas só pergunto: porque é que isto teve de ser assim? Porque é que a minha família, cujos membros (em geral) eu sei que até percebem/percebiam (alguns já cá não andam) de dinheiros e afins, não partilharam isso? Porque é que cada geração tem de aprender tudo a partir do zero, sem se aproveitar a experiência da geração anterior? Claro que isto é só a minha família, especificamente, mas tenho a ideia de que o meu caso não é único, que em muitas famílias quase todas as gerações são obrigadas a “reinventar a roda”, a repetir os mesmos erros e — uns mais cedo, outros mais tarde, outros nunca — a aprender com eles… para depois os filhos passarem pelo mesmo outra vez.

Desculpem lá o desabafo, mas estes tabus são ridículos. E, se um dia tiver filhos, vou agir da forma oposta.

(Nota: este post é uma expansão de dois comentários que fiz no blog A teia dos 20 mais x!.)