Mesadas, e tabus sobre dinheiro

Imagina a situação: queres muito ter X, mas X custa 5 vezes o que te resta todos os meses (depois de pagar contas, pôr de parte o dinheiro para a comida e outros bens de primeira necessidade, etc.). Vamos supôr que não tens nem poupanças nem dívidas. O que fazes?

  1. Desisto; nunca vou ter esse dinheiro, pelo menos enquanto ganhar somente o que ganho.
  2. Compro com o cartão de crédito, e fico a pagar nos próximos 10 meses ou mais.
  3. Poupo durante 5 meses e compro a pronto.
  4. Suborno o ogre com 10 moedas de ouro e duas provisões, para ele me deixar passar.

(Desculpem a última, esta lista de opções fez-me lembrar coisas do passado.  🙂 )

Agora que somos todos adultos, e interessados nestas coisas (finanças pessoais, poupança, etc.), a resposta óbvia será, sem dúvida, a 3 1. Mas, acreditem ou não, passei a infância e adolescência a achar que a única resposta para já era a 1 (a não ser que alguém da família tivesse um ataque de generosidade), e depois passei os 20s e os 30s (e, para vergonha minha, o início dos 40s) a ir sempre para a 2.

E porquê? Não quero, obviamente, culpar outros pelos meus erros (aliás, “culpar” é quase sempre a coisa errada — ao focarmo-nos demais em “culpas”, não estamos a olhar para soluções), mas acho que grande parte do problema foi nunca ter tido mesada, e ter crescido em casas 2 onde falar de dinheiro era tabu.

O resultado disto é que cheguei à idade adulta a acreditar (mesmo que inconscientemente) que o dinheiro era “para gastar”, que a única forma de ter algo que não “coubesse” num ordenado era comprar a crédito, e sem ter mentalizado conceitos complicadíssimos como “não gastar agora, para daqui a uns meses poder comprar o que realmente quero” (já nem falo de outros conceitos super-avançados, tais como “poupar (e, idealmente, investir) X% todos os meses“…).

Note-se, até acho que mesadas não devem ser incondicionais. Acho que devem estar condicionadas a certas coisas (ex. X por cada dia do mês em que o quarto esteve arrumado, mais Y em proporção às boas notas, mais Z por fazer esta ou aquela tarefa em casa, e assim por diante). Afinal, no mundo real ninguém recebe só por existir…

A outra parte do problema foi, como disse acima, o tabu em falar-se de dinheiro. A única “sabedoria” que alguma vez ouvi da minha família — tivesse eu 16 anos, ou 26, ou 36 — não incluo os 6, lá está, por não ter tido mesada) foi “poupa!“, mas nunca me disseram porquê, nunca me falaram de conceitos como juros de cartões de crédito, juros compostos, investimentos, contas-poupança, outros tipos de poupanças, como gerir o ordenado / planear os gastos do mês, etc.. Nada disto; tive de aprender tudo “intelectualmente” por mim próprio, já depois de sair de casa da família, e acho que só “interiorizei” já depois dos 40, quando me comecei a interessar a sério por estes assuntos (e a ler livros, blogs, etc. sobre eles).

O resultado disto, obviamente, foi chegar aos 40 com dívidas e sem poupanças… quando era suposto ser ao contrário.

Mais uma vez, não estou a culpar ninguém pelos meus próprios erros, mas só pergunto: porque é que isto teve de ser assim? Porque é que a minha família, cujos membros (em geral) eu sei que até percebem/percebiam (alguns já cá não andam) de dinheiros e afins, não partilharam isso? Porque é que cada geração tem de aprender tudo a partir do zero, sem se aproveitar a experiência da geração anterior? Claro que isto é só a minha família, especificamente, mas tenho a ideia de que o meu caso não é único, que em muitas famílias quase todas as gerações são obrigadas a “reinventar a roda”, a repetir os mesmos erros e — uns mais cedo, outros mais tarde, outros nunca — a aprender com eles… para depois os filhos passarem pelo mesmo outra vez.

Desculpem lá o desabafo, mas estes tabus são ridículos. E, se um dia tiver filhos, vou agir da forma oposta.

(Nota: este post é uma expansão de dois comentários que fiz no blog A teia dos 20 mais x!.)

  1. ou, possivelmente, uma 5: arranjar forma de ter um equivalente gratuito ou pelo menos substancialmente mais barato, ou 6: questionar porque é que “quero muito” essa coisa: será que vai melhorar mesmo a minha vida? ou estarei só a competir com os outros à minha volta — o que em inglês se chama “keeping up with the Joneses“?
  2. “Casas”, plural — pais divorciados aos 8 anos.

5 comentários em “Mesadas, e tabus sobre dinheiro”

  1. Infelizmente a educação financeira não faz parte de muitas casas é um facto, o que tornará a vida adulta no mundo do gerir o que se ganha, difícil.
    Eu não acho que ter uma mesada seja o importante do negócio, não tive, e não me faz menos capaz no assunto de poupar. Mas a diferença está no comportamento da minha família, sempre, sempre falaram de onde investir todos os meses, sobre termos de esperar pela mesa nova com as cadeiras “pindéricas” a acompanhar porque ainda não tinham junto o suficiente. Sempre houve essas conversas.

    Mas descansa (ou não), a juventude de hoje não está mais preparada que tu nestes assuntos (logo agora, que nos últimos anos, tudo evoluiu e se reinventou, e é tudo e tudo mais assunto de conversa – ou não.).

    1. Finalmente, um “tu”. Estava difícil. 😉

      Concordo, sem dúvida, que a parte da comunicação, e da partilha de conhecimentos e experiência, é o principal, sendo a questão da mesada bem menos importante. Tu tiveste a primeira, e “safaste-te” bem sem a segunda; eu não tive nenhuma das duas, e… bem, mais vale tarde que nunca. 🙂 Mas ainda acho que mesada — sobretudo se não for incondicional — é uma boa ideia, para ensinar a “adultar” desde cedo.

      Quanto à juventude, não sei, mesmo… por um lado, olho à volta e eles parecem-me todos mais “certinhos” do que no meu tempo, mas, por outro lado, ainda esta semana vi uma thread no Facebook sobre um artigo que dizia que aos 35 anos as pessoas já deviam ter poupado o equivalente a 2 anos de ordenado, e todas as respostas eram de jovens completamente chocados com isso — tipo “Como é que é possível?” “Esta gente não vive no mundo real!” “DÍVIDA de 2 anos de ordenado, querem eles dizer!“, e assim por diante.

      Tem piada: se aos 20 anos me dissessem que aos 35 devia ter essas poupanças, se calhar teria visto isso como um desafio. Eu respondo bem a desafios — aliás, todo este blog é um auto-desafio. Mas, nessa altura, o meu conhecimento sobre estes assuntos era zero, tal como o número de pessoas que me falava deste tipo de coisas.

      Eu sei que o ando a dizer muitas vezes, mas… mais vale tarde que nunca. 🙂

      1. Começo pelo teu fim, sim, mais vale tarde que nunca, sem dúvida. Nunca é tarde para se fazer seja o que for e se há a possibilidade de melhorar é aproveitar.

        Sem nenhum alicerce nesta matéria deve ser difícil sim. Mas se este espaço é um desafio e gosta de desafios é começar a aproveitar e a traçar metas. Eu comecei a prazo (1 ano) e agora já estou a pensar no infinito 🙂
        Boa sorte na caminhada.

        Quanto aos 35 ter o equivalente a 2 anos de ordenado (e eu que já não estou nos 20 certos) não me parece difícil. Aliás, acho até que conseguiria bem melhor, mas lá está, apenas e só a manter o nível de gasto/poupança que tenho de momento. A alterar o modo de vida, talvez não fosse tão fácil.

  2. Eu nunca tive mesada (não havia possibilidade para tal), mas cá em casa sempre se falou de dinheiro, da importância de se poupar para se comprar alguma coisa mais cara. Nunca houve cartões de crédito. E desde que comecei a trabalhar todos os meses coloco algum de lado (que já me salvou em bastantes ocasiões). E já me ocorreu que se tivesse tido a tal mesada, talvez as cabeçadas que ando agora a dar tivessem acontecido mais nova e hoje em dia soubesse gerir melhor o meu dinheiro.

    1. Sim, exactamente. Se uma pessoa começa a trabalhar, sei lá, aos 16 anos (seja emprego de verão, seja part-time, seja deixar a escola, não importa aqui) e nunca teve mesada, então parece-me que, mesmo que a família tenha sido o oposto da minha e lhe tenha falado de dinheiro desde cedo (o que acho muito bem), como a pessoa nunca teve o seu próprio (e não teve de o gerir), então tudo o que aprendeu até aos 16 anos é teórico. É como aprender informática somente com livros, sem nunca ver um computador.

      E há coisas que só vêm com a prática — incluindo os erros que mencionaste, e que se calhar é preciso uma pessoa cometer, de forma a “tirá-los do seu sistema”, e portanto mais vale cometê-los cedo e com quantias menos significativas. Acho eu. 🙂

Deixar uma resposta