Sistema de envelopes: porque é que não o uso

O sistema de envelopes tem várias variantes, mas em geral implica guardar, nos referidos envelopes (que não têm necessariamente de ser envelopes físicos), o dinheiro que se prevê ser necessário para as várias despesas (ou categorias de despesas) do mês (bem como algumas despesas semestrais ou anuais, como determinados impostos, seguros, etc.):

  • contas da casa
  • supermercado
  • transportes
  • pagamento de prestações, créditos, etc.
  • lazer/”loucuras”
  • imprevistos/emergências
  • parte de cada uma das tais despesas semestrais ou anuais.

Em geral, quem usa este sistema fá-lo por duas razões diferentes:

  1. Organização: para que uma pessoa nunca se “perca”, nunca deixe de ter o dinheiro necessário para as várias despesas (regulares e não só), por exemplo por gastar mais do que devia; desta forma, é garantido que elas são sempre pagas, que uma pessoa nunca leva com multas por atraso nos pagamentos, etc.;
  2. Poupança: a ideia é que, ao alocar o dinheiro aos vários envelopes (para cada tipo de despesa), esse dinheiro é como se fosse “escondido” de nós, como se ficasse indisponível desde o primeiro dia. Além disso, ao alocar-se um envelope para “lazer” (ou “prazer”, ou “loucuras”, ou como lhe quiserem chamar), isso implica, supostamente, que esse tipo de gastos está limitado a um valor relativamente pequeno.

Este sistema é relativamente popular, pelo que tenho visto (por exemplo, ver aqui, ou aqui, ou aqui). Mas… eu não o uso, nem acho que seja bom para mim (não estou, de forma alguma, a criticar quem o segue!), e passo a explicar porquê:

  1. sugere que a pessoa tem pouco auto-controlo e precisa de “esconder” o dinheiro de si própria de forma a não o gastar. Eu sou grande apologista de que mudar comportamentos e hábitos é difícil, mas que, se mudar primeiro a “cabeça”, os comportamentos e hábitos virão naturalmente. Neste caso — e não digo isto para me “gabar”; quando muito é um contrabalanço de décadas anteriores de consumismo idiota — desde há uns meses para cá que acho que finalmente consegui — pelo menos para já — “desligar o consumismo”; se neste momento me oferecessem 1000€, o meu primeiro pensamento seria “de qual dos cartões reforçar o pagamento?“;
  2. torna mais difícil o “tracking”/análise posterior dos gastos, já que não fica automaticamente registado nos movimentos da conta bancária para onde é que cada parte do dinheiro foi;
  3. ao atribuirmos X€ para lazer/”desperdiçar” (em geral, em pequenos prazeres temporários, e/ou para satisfazer o consumismo) todos os meses, de certa forma garantimos que em cada mês “desperdiçamos” X€ (Acontece algo parecido em geral nas empresas: se um departamento tem um orçamento de Y€ para o ano, é garantido que gasta pelo menos Y€ nesse ano — até porque, se não o fizer, para o ano o orçamento será menor.). Ou seja, quase que se garante, dessa forma, que não melhoramos os nossos hábitos. Não tenho nada contra gastar dinheiro mensalmente em entretenimento — eu próprio tenho uns comics que assino, mais o Google Play Music, o Netflix, a assinatura do Audible, etc. –, mas são coisas específicas, que entram individualmente no plano (ver ponto 4)… não sei, acho que dizer “50€ para lazer/loucuras/disparates/etc.” é dizer “não quero nada específico, mas preciso de gastar dinheiro“;
  4. acho que há formas melhores de organizar a coisa, e que não têm as desvantagens dos 3 pontos anteriores. No meu caso, uso uma simples folha de cálculo, uma por mês, em que ponho o dinheiro com que começo (restante na conta + ordenado + lucros dos sites), depois especifico (e retiro o valor de) todas as despesas fixas obrigatórias, incluindo prestações dos créditos pessoais — e incluo também as várias assinaturas (comics, etc.), que mencionei no ponto 3, aqui –, e vejo quanto posso usar para pagar os vários cartões de crédito. Guardo (tipo “não lhe mexer”, não preciso de levantar e pôr num envelope 🙂 ) sempre alguma coisa para possíveis emergências, mas sempre com a ideia de isso chegar até ao fim do mês seguinte sem ser tocado. E não tenho, actualmente, quaisquer pensamentos de “sobra dinheiro, deixa ver que jogos/livros/etc. posso comprar” — neste caso específico, porque tanto livros como jogos já estão limitados (os primeiros a um por mês sobre finanças ou desenvolvimento pessoal, os segundos — pelo menos até fazer anos, no fim de Julho — aos dois que já mencionei aqui várias vezes). Além de que o dinheiro não “sobra” — já tem para onde ir — enquanto temos dívidas.

E é isto. Espero não ter ofendido ninguém — não estou mesmo a criticar quem se dá bem com os envelopes, OK? 🙂 Apenas a partilhar porque é que não sou fã deles, e qual a forma que comigo funciona melhor. Se isto der ideias a alguém, fantástico. 🙂

8 comentários em “Sistema de envelopes: porque é que não o uso”

  1. Identifico-me bastante contigo neste aspecto. A partir do momento em que decidi poupar dinheiro não me foi difícil começar a mudar de vida. É como dizes, primeiro mudar a cabeça.

    O teu ponto 3 retrata muito do que eu penso e do que me custa ouvir da boca de amigos. Eu própria já cheguei a atribuir um determinado valor para gastos supérfluos, até me aperceber que era dinheiro gasto em “nada”.

    Não uso este sistema, conheço pessoalmente quem o use e se dê muito bem com ele. E ainda bem. Ajuda de facto muita gente. Porém, pessoalmente, não se encaixa no meu modo de poupar hoje em dia (que se resume, ao máximo possível, pelo que, andar a distribuir dinheiro por envelopes me ia fazer perder o norte) o único montinho que faço diz respeito ao seguro e manutenção auto. Mensalmente coloco x€ de lado para esses fins.

    Tenho no entanto de fazer uma ressalva ao teu ponto n.º 1, não me parece que quem use este sistema queira esconder o dinheiro de si próprio, acho até que é uma forma de garantir que aquela é a verba para aquele fim e comprometer-se nesse objectivo. O ponto 3 inserido aqui é que pode estragar tudo.

    Boa continuação 🙂

    1. Olá! É verdade, não estou, como disse no post, a criticar minimamente quem usa o método em questão; se se dão bem com ele, ainda bem. 🙂

      O ponto 1, de facto, não se aplicará necessariamente a toda a gente que use os envelopes; de certeza que muita gente o faz mesmo só por organização (isto é, para não se esquecer de pagar as várias coisas e garantir que tem dinheiro para o fazer). Mas também haverá quem seja mais tipo “tenho de tirar o dinheiro da conta, senão ainda o gasto” — ou seja, os envelopes servem para passar o mês todo com pouco dinheiro na conta, já que a pessoa não confia nela própria para ter juízo.

      De resto, isto também tem a ver com a parte de mim que gosta de se auto-desafiar. 🙂 Lembro-me de um personagem numa série de livros que, depois de anos de alcoolismo, consegue não só deixar de beber, mas põe uma garrafa de um whisky caro na gaveta, no trabalho, para se auto-testar todos os dias. Sei que é um personagem fictício, mas acho esse tipo de desafio auto-imposto algo admirável, e “badass”, além de servir como treino. 🙂 Daí que a ideia de ter o dinheiro acessível e não o usar me parece mais admirável, pelo menos quando aplicada a mim próprio, do que pô-lo semi-inacessível (dentro dos envelopes).

      Da mesma forma, não cancelei, e continuo a abrir, mails promocionais da Playstation Store, do Steam, da Amazon, do Audible, etc. 🙂 É a tal história de mudar comportamentos, ou mudar a cabeça. Se a única razão pela qual não compro entretenimento de que não preciso é não ter ouvido falar dele, então não evoluí realmente muito desde os meus tempos de ultra-consumista, não é?

      (Mas, mais uma vez, não estou a julgar ou criticar quem prefere evitar tentações, OK? Cada um sabe de si e da sua vida.)

      1. Bem, a ideia dos envelopes está, no meu entender, um pouco mal desenhada no seu objectivo.

        Colocar uma verba todos os meses num envelope, para utilizar numa despesa que já se sabe à partida que existirá, do tipo, “ah, ok, a fatura da luz este mês são 45, 20€, deixa-me guardar esse montante no envelope…”, não traz nenhum benefício extra, apenas vai ajudar a viver debaixo do lema “chapa ganha, chapa gasta”.

        Mas esse também não é o objectivo dos envelopes. Para quem se começa a aperceber que não tem nada para os dias futuros, mas que não tem um rendimento mensal que deixe uma boa quantia de parte com que começar, começa por distribuir o dinheiro do mês em envelopes, mas com um pouquinho em excesso. Voltando ao exemplo acima da “luz”, se a fatura do mês é 45,20€ e o orçamento aguenta que coloque no envelope 50€, aloca-se os 50€ ao envelope electricidade durante os meses futuros, nunca mexendo nos restinhos que ficam de mês para mês.

        Qual é o objectivo?

        Construir um plano de emergência constituído pelos valores necessários para suportar aquela despesa (electricidade, p. Ex.) por pelo menos 6 meses. Isto significa que, com os restinhos de cada mês, vai-se construindo a quantia necessária para pagar a factura daquela despesa, caso se fique desempregado ou sem recursos, por 6 meses, por exemplo.

        Assim, quem não dispõe de 200€ livres no final do orçamento para colocar de lado, mas tem uns poucos euros, vai definindo as suas prioridades e prevenindo o seu plano de emergência, grão a grão, despesa a despesa, envelope a envelope. Quando chega ao montante que estipulou para si num envelope, passa para o próximo, e segue a mesma tática até ter 6 meses de despesas asseguradas em cada envelope, em cada “despesa”. Se o deixa guardado em envelopes ou não , não é importante. O importante é que faz esse plano de emergência existir na sua vida, no seu orçamento.

        Espero ter ajudado, e mais uma vez, as minhas desculpas pelo “testamento”. 😉

        Ariana

        1. Olá Ariana,
          Agradeço o seu comentário, e de facto conheço esse método e ao que se cinge.
          Ainda assim a sua explicação, para quem não o conheça, está muito bem estruturada.

          No entanto, e foi por isso que comentei, não se enquadra na minha realidade agora, porque não tenho “despesas” para tal. Só tenho um caso, o do seguro e manutenção auto. Estimei o valor anual dividi/12 e obtive um valor a guardar. Coloco sempre mais que esse valor. Este mês já paguei seguro e manutenção com esse dinheiro e ainda mantenho valor. Não considero sistema de envelopes porque só faço um.

          Como já referi, conheço quem o use e se dê muito bem com ele. 🙂

  2. Eu não tenho sistema de envelopes mas faço sempre um orçamento anual de forma a ter a perspectiva de quando vão aparecer as contas anuais (IMI, seguro do carro, seguro da casa, etc.). Como é baseado nos anos anteriores é muito fácil.

    A esses valores junto o orçamento mensal normal (despesas correntes) e sei, mensalmente, aproximadamente quanto é que será a despesa desse mês e quanto vai sobrar. No fundo é um mapa de cash flows, mês a mês.

    Para mim é o quanto baste. Mas compreendo perfeitamente quem use os envelopes. O importante é ter as contas em ordem, seja com envelopes ou com outro sistema qualquer.

    Há dois fenómenos que me fui apercebendo ao longo dos anos. Um são as pessoas que só levantam 10€ no MB porque “se tiver mais na carteira, gasto”. Causa-me confusão que se gaste só porque se tem na carteira. Eu levanto sempre 200€ para minimizar as idas ao MB. E os 200€ duram o tempo que têm de durar, nem mais, nem menos do que se levantasse 20 vezes 10 €.
    Outro fenômeno é ser surpreendido por contas anuais (epá, este mês “apareceu-me” o IMI ou “tenho os livros da escola dos miúdos” e estou aflito). É estranho que despesas que estão longe de ser imprevistas, causem um problema (uma avaria no carro ou um problema de saúde, compreendo – mas mesmo assim convém ter um orçamento, se possível, para imprevistos).

    1. Não podia concordar mais em relação aos 2 últimos pontos: o “se tiver mais dinheiro na carteira, gasto mais” (parece que uma pessoa não tem vontade própria e é escrava das suas “hormonas consumistas”, ou algo do género), e o “chegou uma conta que todos os anos aparece neste mesmo mês? estou chocado e surpreso!“. 🙂

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